7 autoexames para fazer agora!

Uma matéria linkada no site do UOL aponta 7 autoexames para fazer AGORA (antes de dormir?). Nem li. É claro. Mas me parece mais um desses artifícios, mais ou menos conscientes, da sociedade do medo. Viva com medo. E qualquer não-medo – mesmo que seja da água do filtro de barro da sua cozinha – será reconfortante.

Suponho que, como tudo na natureza, o corpo humano seja obra de uma variedade mais ou menos concatenada de acasos. Portanto, nunca vai funcionar perfeitamente bem. Se o objetivo é achar problemas no corpo humano, problemas serão achados. O problema é o que fazer com os problemas achados. É evidente que existem inúmeros problemas de saúde, cada vez mais presentes, talvez. Mas a medicalização da vida e do cotidiano é muito mais o problema do que a solução.

A Folha.com noticiou que a venda do ansiolítico clonazepam (leia-se Rivotril) aumentou mais de 35% nos últimos quatro anos. Ninguém pode ficar triste, é doente quem fica triste.

Falta razão para ficar triste no mundo de hoje, de ontem ou de qualquer tempo? Não falta.  A questão não seria então a tristeza em si, mas o motivo da tristeza. O motivo da tristeza de hoje não seria resultado do hiato entre o mundo como ele é e a idealização do mundo (e da vida) que tenta se estabelecer?

Estamos tomando remédios para que o falso ideal de uma natureza perfeita se coadune com um real que é evidentemente imperfeito, posto que não foi planejado por nenhuma inteligência perfeita da vida.

Houve uma época em que falavam de uso de drogas como opção para fugir da realidade. Sabemos que da realidade não se foge, pois a realidade simplesmente é a realidade. Seja qual for (drogada ou não-drogada). As drogas autorizadas de hoje não seriam drogas para esconder o fato de que a realidade da vida é sempre plena de significados confusos? E que por ser plena e confusa pode ser prazerosa ou doída ou os dois ao mesmo tempo?

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3 respostas para 7 autoexames para fazer agora!

  1. Oi, guto!

    Muito bacana esse seu novo blog, tomara que você leve ele por muito tempo. =D Como anda a mônica, aquela eterna sumida? (tão sumida, mas tão sumida, que eu acho que ela se perdeu)

    Eu tava fazendo um trabalho, que nunca ficou pronto ou foi entregue, sobre como o mundo anda cada vez mais individualista. Cada vez mais, o que importa são as conquistas pessoais, ter amigos pra exibir, ter seguidores, ter cérebro(?) ter coolness. Acho que isso influencia nessa necessidade de padrão, de ser O MELHOR do padrão, mas só por fora. Quantas pessoas não devem ter lido essa reportagem, e quantas realmente fizeram esses exames? eu acho que esse negócio de parecer feliz e saudável é mais importante do que ser feliz e saudável de fato.
    Olha, são sete e blau da manhã e eu estou atrasada pro trabalho E com sono, mas queria tentar dar sentido pra isso que eu falei. É que parece que se perdeu, mas as palavras fogem no meio do caminho. O negócio é que eu acho que as pessoas não querem se encaixar no padrão, elas querem parecer parte do padrão. Elas tanto querem dizer que são magras e adoráveis quanto querem parecer eternamente felizes. não é a tristeza que incomoda, eu acho, é aparentar tristeza.
    Ou então, aparentar tristeza sem glamour. Mulher é um bicho estranho, quando chora a primeira coisa que faz é correr pro espelho. Esses dias eu entrei no orkut de uma amiga dos meus pais que perdeu a filha, pra dar uma futucada na for alheia, e me deparo com a foto do olho dela, mais do que maquiado e lindo, com uma lágrima singela escorrendo. Nossa, como é bonito isso de chorar com um monte de maquiagem, eu quando choro fico logo entupida, vermelha e inchada (e sei disso porque já me olhei no eselho, a natureza feminina é mais forte)
    Enfim, acho que o rivotril tem dois lados. O primeiro é que as pessoas ficam tão malucas com esse negócio de parecer feliz que acabam pirando. O segundo é que todo mundo adora uma atenção e quer poder dizer que etsá tomando rivotril, mas está melhorando, obrigada, mas você tem que entender como ela sofre, seu insensível, depressão é coisa séria queria ver se fosse você no meu lugar.
    Eu acho engraçado. ._.’

  2. Luiz disse:

    Acho que essa coisa que a Rayssa disse do aparentar-ser, incluindo o aparentar ser depressivo, é problemático também para quem se perdeu pela vida, e sofre. Sem tempo e lugar para as fotos. Sem plateia. Uma pessoa com problemas reais pode ser frequentemente confundida com @s paquit@s da tristeza e não ser levada a sério, quando deveria. Parabéns pelo Blog.

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