God is in the house

Polícia, Adjetivo

Polícia, Adjetivo

Assisti ontem ao “Polícia, Adjetivo” (2009), do romeno Corneliu Porumboiu. Não sabia da existência do filme até ver a programação do Telecine Cult. Como “mexo com polícia” há muito tempo, marquei comigo mesmo o compromisso para as 22 horas. Antes dei uma googlada. Li isso e isso, além de outras coisas que não vêm ao caso. Entre as reclamações, citam muito que o filme é parado, quase exasperante. Aquelas coisas: “é bom…, mas tem que ter paciência”. Outros disseram que após duas horas o diretor foi brilhante nos últimos 20 minutos.

Não concordo. O filme é muito bom do início ao fim. Desde a primeira cena, uma rápida discussão sobre correr ou jogar futetênis (um futevôlei com a rede baixa) para emagrecer, o argumento está presente. O colega do protagonista (Cristi) pede para participar dos jogos de futetênis. Cristi responde que não dá, pois ele não sabe jogar. Deveria, sugere, correr. Mas o colega diz que correr (sozinho) não tem sentido, seria entediante. No jogo corre-se atrás da bola, há sentido (coletivo). Pois bem, essa discussão reaparece transfigurada, é claro, no final do filme.

Quanto à reclamação sobre o filme ser parado, penso que um filme é mais ou menos “parado” não por causa de conter mais ou menos ação (no sentido usual dos filmes de ação). Um filme é parado quando o diretor e/ou fotógrafo não sabem o que fazer com a câmera. E o Porumboiu sabe. Há uma ótima cena em que Cristi espera para falar com o comandante. Estão na sala Cristi, a secretária e uma pessoa que não aparece no plano. Ouvimos apenas a sua voz quando falam dos jornais disponíveis (o cara escolhe ler o jornal que se chama “A Verdade”!). A espera é demorada, do tipo chá de cadeira. A secretária digita alguma coisa. A cena é longa e interessante porque a câmera leva os olhos do espectador para aquele universo absurdo de uma “delegacia” de polícia.

Disseram também que o filme faz uma discussão superficial sobre as relações entre a lei estatal positiva e a moral pessoal. Talvez seja verdade para quem esteja muito preocupado com o texto. Mas quem gosta de texto tem de ler livros (ou, pelo menos, ver um bom teatro).  No cinema o negócio é a imagem (!). Detalhe: em todo o filme não há um, nenhum mesmo, close.  Isso é mais importante do que o texto. Embora ouvir o romeno seja muito agradável.

Vamos ao que interessa, pois não sou crítico de cinema. A história é simples. Cristi é um policial que está investigando um rapaz que fuma (e compartilha com um amigo e uma amiga) haxixe. Os superiores querem que ele faça o flagrante e prenda o colegial. Pela lei romena o rapaz estaria encrencado com 7 anos de cadeia. Podendo sair em três anos e meio. O nosso detetive tem consciência de que não está certo estragar a vida de um jovem por causa de alguns baseados. Ele sabe também que a Romênia quer se integrar à Europa e que as ruínas legais de Ceausescu e Stálin não vão durar muito tempo. Alonga a investigação enquanto pode. Tenta achar o fornecedor da droga. Seria menos problemático do ponto de vista moral prender o traficante e não o usuário. Mas a burocracia estatal continua sólida e bem armada de artifícios para promover a obediência de seus funcionários.

Não vou contar o final. O TC Cult passa novamente o filme na sexta (21/01) às 2:15 da madrugada. Quem vê esse tipo de filme deve estar acordado a essa hora (e os torrents e rapidshares estão aí).

O assunto não acaba aqui. Vou continuar em breve falando, de um ponto de vista sociológico, sobre o papel da polícia e da segurança pública na sociedade.

O título do post saiu de uma música do Nick Cave. Ouça a música. Leia a letra (se alguém souber de um site de letras decente, me avise) Tem muito a ver com essa coisa de prender os suspeitos de sempre para que os auto-intitulados cidadãos de bem possam acender suas lareiras e sentir a própria bondade.

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6 respostas para God is in the house

  1. Virgílio disse:

    A “minha turma” gosta e não é uma bosta.
    Ler o Prof. Carlos é sempre um prazer. E olha que eu leio e entendo!
    Sobre o filme, se não me falha a memória, não deliro e não estou mais caduco do que aparento, acredito que seja do mesmo diretor de A LESTE DE BUCARESTE.
    A câmera é lenta. Nâo slow motion, mas lenta de devagar. Nego tem que se acostumar se gostar.
    Cinema é ao contrário. Seja cachoeira, na magnífica definição de Humberto Mauro, seja movie, movimento kinematós.
    Só vi a cena do policial de bigodes escrevendo a definição de consciência, a chegada da hilária secretária e o “dialético” comissário. Lembra mesmo um velho burocrata do socialismo real.
    Pensei: vou deixar pra ver uma outra hora.
    O único movimento da câmera é um sutil afastamento (zoom out), mas não sou crítico de cinema, seja cachoeira, seja movimento, seja uma câmara parada (e não lenta).
    Recomento BAARIA, traduzido pessimamente por A PORTA DO VENTO, puro movimento. Puro cinema, embora não seja uma lição de.
    Também lição de história, do policiamento fascista, do lado policial que todo idiota tem e do policial como idiota engrenagem de um sistema que ele não conhece.
    QUEM NÃO FOR ASSISTIR É PORQUE QUER NAMORAR O JEAN!
    A verdadeira alegria é poder ler o Prof. Carlos (e lendo eu fico ouvindo, como se ele estivesse falando).
    VAI ESCREVER BEM ASSIM NA, bom, deixa pra lá, queria comentário, fiz esse.
    VIDA LONGA EU PROF. CARLOS, a minha turma gosta e desconstrói a ideia do Leminsk.

  2. Pingback: Global Sociology Blogroll Update – Brazilian Edition | The Global Sociology Blog

  3. Ontem, dia 20, vim aqui e li esta excelente resenha “meio de soslaio”, já pronto para pegar somente a ficha e procurá-lo pela internet. Entretanto, resolvi imitar o escriba, marcar um compromisso com as 2:15 da madrugada, quas eme confundo, em achar que seria a madrugada do dia 22. Vi o filme, vencendo o sono; não dei a googleada pq seu texto já me era suficiente. E vim aqui agradecer a você e ao IDelber que sugeriu seu blog. O filme é sensacional! E em breve escreverei os pontos que destaquei. Ah, e ainda achei a música da Maribela Dauer. que a Anca, mulher do Cristi ouvia! É uma canção do folclore romeno, creio.
    Abraços!

  4. Já está lá! Fique à vontade para corrigi-lo, ainda não o revisei pormenorizadamente.

  5. Observar o observador. Você havia dito aqui, sensacional! Numa das resenhas que vi por aí tb abordaram isso. Agora, o mais interessante é criticarem a polícia ex-omunista, como se a francesa, a inglesa (caso Jean Charles) e a americana (fiquemos só neles). Muito interessante!

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