E se quem assalta tem dinheiro?

Assalto que teria sido praticado por uma jovem de classe média rendeu uma matéria curiosa do jornal O Tempo de 25/01:

No último domingo, uma “saidinha de banco” chamou a atenção de maneira especial dos policiais da capital. Apesar do crime ser um dos mais comuns de Belo Horizonte – a PM registra uma média de duas ocorrências por dia – o perfil dos envolvidos desta vez foi diferente.

Amigos da universitária Débora Damasceno, 20, – que agiu ao lado do namorado, o motoboy Guilherme Ruas Mafra, 27, – querem saber o que teria levado a jovem de classe média alta a se envolver na ação criminosa e ir parar na prisão.

“Ela foi criada em uma família estável e com toda a atenção. É uma menina tranqüila, nunca pensamos que isso pudesse ocorrer”, disseram os amigos. Todos acreditam que a estudante de direito tenha sido influenciada pelo namorado.Débora mora com a família no bairro Mangabeiras, na região Centro-Sul.

Quando as pessoas querem entender o envolvimento de alguém com o crime, procuram a explicação mais evidente, mais imediata. Os fatores convencionalmente apresentados como ligados ao comportamento criminoso são preferidos, pois sustentados coletivamente por todos aqueles que acreditam em sua realidade. Quando esses fatores estão ausentes ou não são, por algum motivo, percebidos, inicia-se a busca por algum outro aspecto.

Dos presos que entrevistei em minha pesquisa de doutorado, quase todos podiam utilizar o argumento das más condições econômicas como fator explicativo do envolvimento. Trata-se de um argumento comumente aceito (o que não quer dizer que seja verdadeiro). Mas para muitos deles o fator econômico não tinha um significado importante. Talvez a experiência da pobreza já estivesse tão naturalizada que o entrevistado tinha dificuldade de percebê-la como algo que pudesse provocar o comportamento criminoso (situações de vida que pareceriam precárias para uma pessoa de classe média eram percebidas como razoáveis).

Alguns se referiram ao ambiente da favela (não no sentido econômico, mas social), outros falaram das más companhias, houve quem mencionasse as drogas e os religiosos falaram sobre influências malignas. Eram pobres, mas não enxergaram na pobreza (econômica) uma explicação para o envolvimento com o crime. Essa realidade nos dá algumas pistas sobre como as pessoas interpretam o seu próprio envolvimento. Eles procuram aqueles fatores que fazem sentido em sua própria percepção subjetiva e que, ao mesmo tempo, sejam sustentados convencionalmente de alguma forma.

Um de meus entrevistados apresentou uma história peculiar e a sua grande disposição para procurar uma explicação para o seu envolvimento tornou a sua entrevista particularmente interessante. Adriano conta que foi criado pelos avós desde que seus pais se separaram. Era casado e disse ter 25 anos de idade. Sua maneira de se expressar passava a impressão de que era mais velho. Nunca gostou de estudar, mas sempre gostou de trabalhar. Logo se especializou em compra e venda de carros usados. Conforme relatou, vivia financeiramente bem. Nunca tinha se envolvido com nenhuma atividade ilícita, nem mesmo uso de drogas, até ser convidado por um amigo para vender cocaína.

Adriano procurava por uma explicação para o seu envolvimento e não encontrava nenhuma que fosse comum ou coletivamente sustentada. Não se considerava pobre, não vivia na favela, tinha família e filhos e uma profissão que, na sua própria opinião, era satisfatória. Na falta de uma explicação objetiva pronta o entrevistado se via obrigado a construir seu próprio entendimento da situação.

Em sua busca por uma explicação Adriano nos ajuda a entender o processo de interpretação que leva à escolha dos fatores que passam a ser vistos como responsáveis pelo envolvimento com o crime.

O trecho citado é longo, mas muito interessante. Deixa evidente a perplexidade de Adriano diante da falta de uma explicação que ele mesmo considerasse comum e satisfatória:

As vezes eu converso com minha mulher, converso muito com a minha mulher, porque ela jamais imaginaria de eu mexer com droga, eu tenho um filho de 2 anos e 4 meses, até quando eu fui preso a minha mulher tava grávida de 3 meses e no dia que ela ficou sabendo, que ela me viu algemado, ela perdeu a criança e tudo porque ela não aceitou. Pra ela era tudo mentira, pra ela, ela chegou a discutir várias vezes com os repórteres. Falava que eu não mexia, não mexia. Até que eu cheguei e falei que eu tava mexendo mesmo.

Nunca fui de noitada, eu nunca bebi, nunca fumei, nunca usei droga nenhuma. Esses trem não. Às vezes, é impressionante, eu falo com as pessoas elas não acreditam não. Nunca fui de noitada, de bar.

Eu acho que eu entrei no crime das droga mesmo, as pessoas me fala, eu tenho vários primos, tenho três primo advogado, meu irmão trabalha, minha irmã trabalha. Todos eles têm uma vida financeira boa. E eu acho que a vida que eu levava trabalhando eu poderia me sustentar. Eu acho que eu entrei mais pelo crime assim, ó, vários amigos que eu tinha, pra provar que eu tinha condição de fazer muito mais do que eles. E eu passei a fazer muito mais do que eles, que…, eu passei assim, eles mexiam com uma quantidade de drogas e eu passei a pegar muito mais quantidade do que eles. Eu mexia com tudo quanto é tipo de carro. Eu passei a ter uma confiança dos maiores do que eu lá, então eu tinha muito mais. Então pelo que eu acho assim, o dinheiro não era, porque eu trabalhava e dava pra me sustentar. Ninguém nunca sequer desconfiou. No meu bairro mesmo lá, ó, ninguém sequer até hoje, já tem um ano e oito mês que eu tô preso, as pessoas até hoje não acreditam que eu mexia com droga. Então eu não tenho uma explicação. Eu acho que foi mais pra provar que eu tinha condição de entrar e mexer com isso. E até hoje eu paro e penso. O dinheiro que eu ganhei com o tráfico eu já gastei o dobro na cadeia. Na cadeia eu já gastei o dobro, porque o preso fica na cadeia, ele não tem condição de nada, ele é tratado como lixo mesmo, principalmente numa cadeia como essa aqui, não tem condição nenhuma, então eu até hoje eu não vejo explicação do porquê, pra mim não valeu a pena.

No final das contas, resta a Adriano a idéia de que queria mostrar aos amigos que era capaz. O fato de querer mostrar a sua capacidade aos amigos não o faz atribuir aos outros a responsabilidade por seu envolvimento. Afinal de contas, quem pretendia se mostrar para os amigos era ele. Seus amigos nunca pediram que provasse alguma coisa. É uma característica da fala de Adriano a procura genuína por uma explicação razoável.

Talvez influenciado pelos familiares, outros presos, assistentes sociais, psicólogos, policiais, imprensa e todos aqueles que tentam entender e estabelecer a lógica do envolvimento, Adriano parece se espantar com uma explicação tão simples. Por mais de uma vez ele mencionou o fato de que “as pessoas não acreditam” na explicação. O fato de as outras pessoas não acreditarem na possibilidade de que alguém como ele se envolvesse com o crime acaba levando-o a continuar indefinidamente a busca por uma explicação mais verossímil, como se houvesse alguma explicação escondida que ainda não tivesse sido descoberta.

A matéria do Tempo e os mais de cem comentários que a acompanham confirmam a perplexidade que toma conta das pessoas quando os acontecimentos não seguem as trilhas do esperado.

Esse post foi publicado em Mídia, Sociologia do Crime. Bookmark o link permanente.

5 respostas para E se quem assalta tem dinheiro?

  1. Diego Viana disse:

    Só pra acrescentar: Chico Buarque, quando garoto, foi preso por roubar um carro. “Pura molecagem”, diz Aquiles, do MPB4. Na época, era um “transviado” (segundo os jornais).

  2. Paulo Soares disse:

    Sempre ignoramos a inadequada introjeção de valores, a fraqueza de caráter e a pura e simples maldade.
    Nossa, acho que fui meio carola…

    • Carlos Magalhaes disse:

      Cuidado, Paulo! Carolice é droga pesada! Eu não entro no mérito das causas. Não faço etiologia do crime. O meu interesse está nas interpretações – especialmente as elaboradas pelos próprios envolvidos – sobre as causas do envolvimento.

      • Paulo Soares disse:

        Carolice é uma droga pesada, mesmo. Se reincidir, acho que vou procurar ajuda😀

        Como opção metodológica, ficar com as interpretações é o ideal. Mas podemos nos divertir horas e horas em mesas de bar discutindo “as origens do mal”…😉

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s