Qual é o alvo de Deus, um delírio?

O post abaixo é um requentado de uma boa discussão que ocorreu, no início de 2009,  em meu extinto blog “Imaginação Sociológica”. A republicação se deve ao ótimo debate começado por Luiz Biajoni e Marcos Donizetti. Na seqüência Daniel Lopes e André Egg também escreveram sobre o tema. O Doni fez mais um post. Peço que relevem um possível desarranjo do texto, pois fundi uma seqüência de raciocínios (contruída a partir dos comentários*) em um bloco único.

*Optei por omitir os comentários porque não sei se, depois de dois anos, os comentaristas ainda pensam da mesma forma.

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Uma importante contribuição da teoria sociológica para a compreensão da vida em sociedade é a definição do que podemos chamar de “conseqüências não-antecipadas da ação social”. Para Robert Merton, um dos sistematizadores dessa descoberta recorrente entre os sociólogos clássicos, em princípio, “as conseqüências de uma ação proposital seriam limitadas aos elementos da situação resultante que são, exclusivamente, efeito da ação, isto é, que não ocorreriam se a ação não tivesse sido praticada”. Mas as conseqüências concretas de uma ação são, na verdade, ainda de acordo com Merton, o resultado da interação entre a ação propositada e as condições objetivas do ambiente em que a ação se deu. A partir de um propósito inicial e na relação com as condições objetivas do ambiente da ação, podem ocorrer efeitos que não foram pretendidos ou antecipados. Vale ressaltar que os efeitos não-antecipados não são necessariamente indesejáveis. Podem ser positivos sob algum aspecto, ainda que obtidos involuntariamente.

Em 2009 a Folha de São Paulo apresentou uma notícia que pode exemplificar como a falta de previsão das conseqüências de uma ação pode ser desastrosa (não tenho mais o link porque não assino mais nada do grupo fAlha).

Por conta dos 200 anos de nascimento de Darwin, dois institutos ingleses – Theos e Faraday – publicaram uma pesquisa cujos números indicam que 32% dos entrevistados aprovam a idéia de “criacionismo da Terra Jovem” (o universo e tudo que nele se encontra teriam sido criados por Deus em 6 dias de 24 horas há, mais ou menos, 10 mil anos) e 51% apoiam a hipótese do “design inteligente” (a vida como a conhecemos não poderia ter se desenvolvido por meio de processos naturais aleatórios – só a orientação de uma força inteligente poderia explicar a complexidade e a diversidade que presenciamos hoje). De acordo com a matéria, os números não são excludentes, pois o questionário permitia respostas múltiplas.

Os próprios responsáveis pela pesquisa consideram que os resultados são de difícil interpretação, já que os entrevistados não têm muito conhecimento sobre os temas em questão (a teoria darwiniana, o criacionismo e o design inteligente). De qualquer forma, é correta a conclusão de Denis Alexander – diretor do Instituto Faraday – que considera “desconcertante que, em 2009, existam pessoas que pensam que o mundo tem essa idade [10 mil anos] por conta de uma leitura da Bíblia, quando toda evidência científica demonstra que isso é errado”.

Para Alexander, que adverte sobre a falta de evidências estatísticas conclusivas, existem indícios de que o criacionismo esteja em ascensão na Inglaterra. O pequisador aponta três causas. As duas primeiras estariam relacionadas ao aumento da população de imigrantes islâmicos e à multiplicação de igrejas pentecostais de negros e afrodescendentes [grifos meus] (para quem simpatizou com a primeira opinião do pesquisador sobre a relevância do conhecimento científico, essa agora é um chute etnocêntrico e, porque não dizer, racista bem no meio do … da canela!).

Mas é a terceira causa que me chamou a atenção por se conectar com o problema das “conseqüências não-antecipadas da ação”. Segundo Alexander, o ateísmo militante de “intelectuais neodarwinistas”, capitaneados por Richard Dawkins, tem provocado o crescimento do apoio ao criacionismo na Inglaterra. As igrejas, mesquitas e sinagogas aproveitam a militância de Dawkins e cia, fazem uma caricatura de seus argumentos, e repetem aos fiéis que evolucionismo é sinônimo de ateísmo. Como os fiéis rejeitam fortemente o ateísmo, acabam por se afastar da teoria da evolução. A violência dos ataques de Dawkins à religião (não considero despropositada a especulação sobre a existência de um certo fundamentalismo ateu nesses ataques) estaria estimulando reações também violentas do outro lado. No final das contas, Dawkins estaria ajudando os fundamentalistas do criacionismo. Trata-se da típica conseqüência não-antecipada da ação em sua pior forma: o efeito não-antecipado é contrário ao objetivo inicial. Talvez fosse bom para Dawkins ler um pouco da literatura das ciências sociais… ela nos alerta para o imponderável que sempre acompanha as ações humanas (quero crer…).

Um depoimento pessoal: Como leigo, sempre admirei a beleza e a genialidade da teoria da evolução. Darwin é um de meus heróis desde que li a sua biografia. Sou leitor entusiasmado dos livros de divulgação científica que tratam de biologia. Foi assim que conheci e passei a gostar do Dawkins, há muito tempo. Mas não posso deixar de admitir que o “Deus, um delírio” me decepcionou. É aquela hitória de chutar cachorro morto. Escrever um livro inteiro para atacar o fundamentalismo religioso mais tacanho me parece um desperdício de energia e talento, ainda mais no caso de Dawkins. O que mais me desagradou no livro foi a incongruência entre a violência dos ataques aos raquíticos fundamentalistas e uma espécie de “corrida do pau” no enfrentamento das religiões mais esclarecidas. Não engoli, por exemplo, a estratégia de chamar o budismo de filosofia para diferenciá-lo da religião e, assim, não ter que encará-lo de frente. Parece que Dawkins optou por bater no bêbado. Bater no bêbado não é vantagem. Mas apanhar dele é feio.

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Embora tenha chamado os fundamentalistas de bêbados, esclareço agora que não deixo de me preocupar com eles. Minha maior preocupação se refere ao seu avanço político. Têm cada vez mais ocupado vagas nos parlamentos e mesmo nos executivos (mais raramente, felizmente). Tenho arrepios ao pensar que posso ser obrigado a fazer alguma coisa ou proibido de fazer outra porque uma lei de orientação religiosa entrou em vigor (um candidato a vice-prefeito de Belo Horizonte, por exemplo, deputado estadual em MG, usou as suas prerrogativas para homenagear um juiz de não-me-lembro-qual-cidade porque o Preclaro Magistrado negou o direito ao aborto a uma mulher cuja gravidez resultava de um estupro. Sei que não se trata de uma lei que pode interferir na vida de alguém. Mas esse tipo de coisa – homenagem a uma decisão repulsiva de um juiz – representa para mim um sinal de que devemos estar muito alertas para não termos que lamentar depois por ocorrências mais graves).

Vivemos em um mundo perigoso e incerto, a realidade escorrega por entre os nossos dedos quando tentamos apreendê-la, enfrentamos dificuldades relacionadas à construção/manutenção de nossa própria identidade – tanto a identidade social, como a mais ou menos correspondente auto-imagem pessoal. Falta-nos a todos aquilo que Anthony Giddens chama de “segurança ontológica”. Definindo o conceito de uma forma pouco rigorosa, poderíamos dizer que tem a ver com a necessidade de acreditar que “tudo é e continuará sendo o que sempre pareceu ser”. Como construir e manter essa crença no mundo que Bauman chama de líquido? Fácil não é. Essa dificuldade talvez explique a profusão de fundamentalismos, não apenas religiosos, nos dias atuais.

Como escrevi anteriormente, uma das fraquezas que vejo no “Deus, um delírio” é a negação de discutir as concepções mais robustas da religião. Dawkins faz referências explícitas ao budismo e à “religião de Einstein” (mas seria possível incluir também versões teologicamente mais elevadas dentro do monoteísmo judeu, cristão ou islâmico) para dizer que não seriam exemplos de religião, mas de filosofia. Não seriam, portanto, objeto de seu livro.

Não vejo nenhum problema em delimitar os assuntos a serem abordados no livro, a delimitação é inevitável. No entanto, penso que a delimitação foi feita de uma forma um tanto desonesta. Talvez por questões de marketing editorial, o livro é apresentado como um ataque à Religião (com erre maiúsculo). Mas ele não passa de um ataque ao fundamentalismo religioso mais raquítico. Essa “propaganda enganosa” causa decepção.

Mais do que decepção, acredito que a abordagem editorial matou o livro. Se o livro é vendido como um ataque à Religião e a religião descrita no livro é reduzida àquele amontoado de absurdos fundamentalistas, fica, pelo menos para mim, a impressão de que o autor não pôde ou não soube construir argumentos consistentes e definitivos contra a Religião.

Seria, talvez, mais apropriado vender o livro como um ataque ao fundamentalismo religioso mais obtuso, mas, do ponto de vista editorial, imagino que isso poderia dimuir o interesse pela obra. De qualquer forma, continuo achando que o livro oferece munição para o inimigo. Dá uma excelente oportunidade aos pregadores fundamentalistas para se fazerem de vítimas dos ateus demoníacos e incendiarem, assim, as suas assembléias.

Acredito que os maiores alvos do livro não são sensíveis aos argumentos apresentados. Alguém que crê na existência de um velho barbudo pendurado em algum lugar lá em cima que não só criou o universo, mas também se ocupou da elaboração de regrinhas sobre como os humanos devem fazer sexo, não vai mudar de opinião depois de ler um punhado de argumentos contrários. Fica a pergunta: para quem o livro foi escrito?

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10 respostas para Qual é o alvo de Deus, um delírio?

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  2. Biajoni disse:

    acho que o livro é justamente para aquelas pessoas que vivem ouvindo que tem aquele velho pendurado lá em cima, ouviram isso a vida toda, vão aos cultos aos domingos, mas, lá no fundo, acham que não é bem assim. nessa época de informação abundante, um jovem conectado pode desconfiar que o planeta não tem 10 mil anos como diz o pastor – e o livro pode ajudá-lo a se livrar dessas idéias absurdas. tenho emprestado o livro para muita gente, todas acham interessante, o livro tratou de mudar algum conceito ou idéia que tinham anteriormente. tenho recomendado o livro para pais, para que mudem a abordagem sobre religião com os filhos, que dê a eles a chance de pelo menos optarem. eu gostei do livro justamente pela abordagem simples, didática, descomplicada, sem parágrafos nietzscheanos.

    agora esse princípio do Merton é extremamente desestimulante para que se entre em QUALQUER BRIGA. dentro desse princípio talvez fosse melhor fazer vista grossa para o deputado que homenageou o juiz, pois atacando esse ato podíamos incentivar outros iguais. aí não dá. é claro que a ação gera reação, mas acho que o livro do dawkins, que está vendendo milhões mundo afora, está servindo mais para abrir os olhos e incentivar discussões do que gerar articulações maiores da contraparte.

  3. Paulo Soares disse:

    O Marcelo Gleiser, no livro ‘A Criação Imperfeita’, critica figuras como Dawkins e Sam Harris por sua acidez contra a religião.

    Sua crítica começa pela lembrança de uma palestra sobre o Big Bang dada na rodoviária do plano piloto de Brasília em que num dado momento um popular perguntou, “mas o senhor quer tirar até deus da gente?” Por causa disso, ele propõe uma aproximação mais sutil, para que as pessoas não sintam que “algo está sendo tirado delas”. Mais que isso, ele chega a sugerir meio timidamente um culto à Natureza e à sua beleza aleatória e assimétrica. Bem, como esse não era o objetivo do livro, ele não desenvolve muito a ideia do “substituto de deus” (ou seria um ‘placebo divino’?).

    Mas, será que aproximações mais sutis surtiriam algum efeito? Não teriam elas as mesmas “consequências não-antecipadas”? Afinal de contas, qualquer livro de divulgação do evolucionismo pode ser levado a um púlpito e distorcido…. como, aliás, já são.

    Dawkins escreve para aqueles que já duvidam. Não creio que tenha sido a intenção dele aumentar o nível geral de descrença, mas fornecer argumentos para os já descrentes (ou os que já estão na área do pênalti prontinhos pra cair) enfrentarem os teístas menos preparados (até porque a maior parte dos teístas é, digamos, menos preparada para enfrentar um debate desses).

    Além disso, o livro-manifesto serve como um apoio, um suporte. É um sinal de que “vocês não estão sozinhos, há mais ateus no mundo”. É bom lembrar que muitos ateus permanecem “no armário”, pois falta-lhe apoio, ambiente e mesmo motivação para se assumirem.

    E é bom lembrar disso, o livro é um manifesto e, como todo manifesto, tem mais a função de chamar à luta do que vencê-la.

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  7. Assis Utsch disse:

    Carlos Magalhães, Os livros sobre qualquer assunto raramente são completos e Deus, Um Delírio também não é. Mas é um dos melhores livros sobre ateísmo que já li, certamente, melhor do que O Espírito do Ateísmo (Comte-Sponville) e próximo de Deus Não é Grande (Christopher Hitchens) e de Tratado de Ateologia (Michel Onfray). Já sua alegada militância ateísta, que muitos criticam, deve ser contraposta com uma outra pergunta : Se os crentes de todos os cedos têm toda a liberdade para pregar suas superstições religiosas 24 horas por dia, em toda parte, por que os ateus não poderiam ser militantes? Lembremo-nos de que todo indivíduo contém dentro de si o “desejo de reconhecimento”, sua aspiração de que seus valores, suas ideologias ou suas opiniões sejam reconhecidas pelos demais.

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  9. lucabi brasil disse:

    Tenho esta idéia de criar algo que constitucionamelmente se equipare aos direitos que tem as religiões no Brasil e unir os ateus militantes para divulgar a descrença ,ou nossa crença na não existência de deus-es!
    Que tal o nome templo da descrença!
    Quem me acompanha nesta empreitada!

  10. cLA disse:

    Na minha opinião, a primeira hipótese foi acusada de racista e etnocêntrica e a segunda, de que era uma uma reação negativa a Dawkins, foi aceita – dois pesos e duas medidas. E os fundamentalistas não são cachorro morto nem raquíticos – estão espalhando violência e sofrimento pelo mundo. Não acho que ele tenha poupado a Igreja Católica, por exemplo. Acho importantíssimo que alguém tenha coragem de mostrar que o rei está nu pois este rei não é inofensivo. Esse mal vai desde os fundamentalistas mais violentos até o imenso mar de ignorância, cegueira, preconceito e atraso no qual estamos afundados.

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