Ateísmo e Estado Laico

Ainda em torno do debate começado por Luiz Biajoni e Marcos Donizetti. E continuado por Daniel Lopes e André Egg. Leia também segundo post do Doni.

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Se ateu (todas as definições – entre aspas – serão, por mera conveniência, retiradas do dicionário Houaiss) é quem se identifica com a (1) “doutrina ou atitude de espírito que nega categoricamente a existência de Deus, asseverando a inconsistência de qualquer saber ou sentimento direta ou indiretamente religioso, seja aquele calcado na fé ou revelação, seja o que se propõe alcançar a divindade em uma perspectiva racional ou argumentativa” ; sou, então, ateu.

(Embora acredite que não se possa “alcançar a divindade, seja pela fé/revelação ou pela razão/argumentação”, não desqualifico definitivamente o pensamento religioso. De uma perspectiva sócio-antropológica, algumas idéias religiosas ou mitológicas podem se constituir como belas representações, socialmente construídas, sobre a condição humana. Com Durkheim, penso que um fenômeno que se confunde com a própria humanidade não deve ser simplesmente descartado como produto da ignorância, do equívoco ou da estupidez.)

Se ateu é quem se identifica com a (2) “doutrina originada no enciclopedismo setecentista, esp. em Holbach (1723-1789), que recusa a existência de Deus, com base em uma concepção materialista e cientificista da realidade”; eu não seria ateu.

Não gosto da acepção (2) porque ela me parece envolver uma crença ou “contra-crença”. A crença em Deus é substituída pela crença no materialismo ou na ciência (bom que o Houaiss foi cuidadoso e se referiu ao “cientificismo”). Crença é crença de qualquer jeito (“atitude de quem se persuadiu de algo pelos caracteres de verdade que ali encontrou” – “convicção profunda e sem justificativas racionais em qualquer pessoa ou coisa”). Não vejo diferenças significativas entre crença em deuses ou na ciência.

Se ateu é quem se identifica com o (3) “pensamento fundamentado em um pessimismo radical que conclui pela descrença em Deus, cuja existência se mostra incompatível com o sofrimento humano (Schopenhauer), ou um instrumento de fuga diante da tragicidade (Nietzsche) e do absurdo (Sartre) da existência”; estou, então, mais para o ateísmo.

Tenho reservas em relação à acepção (3). Primeiro porque não sou pessimista. Segundo porque há um sentido de orfandade, de desamparo, que, para mim, denuncia uma crença de fundo. Uma negação de Deus, não por sua simples inexistência, mas por seu descuido ou negligência com os humanos.

Mas me aproximo da acepção (3) porque os sentimentos da tragicidade e do absurdo da existência me acompanham o tempo todo. Não procuro fugir deles. São meus companheiros de viagem. Penso que conviver amigavelmente com esses sentimentos não deixa de ser uma forma de ateísmo.

Já simpatizei com o “agnosticismo” (“doutrina que reputa inacessível ou incognoscível ao entendimento humano a compreensão dos problemas propostos pela metafísica ou religião – a existência de Deus, o sentido da vida e do universo etc. –, na medida em que ultrapassam o método empírico de comprovação científica”). Mas tenho pensado que o agnosticismo é uma posição meio em cima do muro.

No final das contas, sou ateu. Mas tenho muitas dúvidas em relação ao proselitismo ateu. Entendo o raciocínio de quem milita pelo ateísmo. Mas não vejo muitas possibilidades de sucesso nesse empreendimento. É um combate travado no território do adversário (crença versus não-crença) e facilmente instrumentalizado pelos fundamentalismos diversos e com tempo cada vez maior nos meios de comunicação.

Talvez fosse mais produtivo para a militância, se é que podemos chamar assim, se preocupar com a consolidação da liberdade religiosa (liberdade de crença, de não-crença e de descrença) e com aquilo que lhe garante: o Estado Laico.

É grave a possibilidade de colonização do poder público por projetos políticos religiosos. A presença das bandeiras religiosas na campanha presidencial de 2010 e a utilização abominável feita pelo candidato FELIZMENTE DERROTADO são motivos de grande preocupação.

A mobilização pela descriminalização do aborto e contra o Estatuto do Nascituro, por exemplo, me parece mais importante do que ficar tentando converter pessoas ao ateísmo.

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9 respostas para Ateísmo e Estado Laico

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  2. André Egg disse:

    Muito legal tua entrada nesse debate, com dois textos muito importantes.

    Minha com os entusiastas do Dawkins é justamente o desconhecimento de como funciona a religião. Algumas colheradas de Durkheim não fariam mal.

    Inclusive, as posições dos fundamentalistas anti-aborto, anti-homossexual, e por um Estado teocrático (estilo Bush II) não são posições cristãs ou posições religiosas. Tem um monte de cristãos progressistas, e o Estado Laico surgiu basicamente em países cristãos multi-confessionais. Os países comunistas do bloco soviético transformaram os dogmas stalinistas e o partido em coisa muito pior do que a religião jamais fez.

    De qualquer forma, impedir o avanço das instâncias religiosas sobre o Espaço Público (eu incluiria aí as comunicações de massa, não só os órgãos de Estado) é uma tarefa política indispensável e inadiável, na qual estão unidos ateus e cristãos progressistas.

  3. Paulo Soares disse:

    Tô tentando acompanhar a discussão sobre Dawkins e deus…

    Bem, o Biajoni considera que livros como o ‘Deus, um delírio’ têm a função de provocar o leitor e que essa provocação os ajuda a repensar sua religião e o impacto dela na “proliferação do ódio, da discórdia, de atentados, de cegueira fanática e mantenedora da ignorância”.

    Não sei se o livro chega a tanto. Vejo-o apenas como um manifesto, cuja função é declarar qual o objetivo da luta e conclamar os já “conversos à Causa” a se movimentarem.

    Esperar algo mais do livro é frustrar-se. Ele não terá (nem teve) mais que o papel de chamar atenção sobre o assunto.

    Isso não significa que o livro é ruim, mal escrito ou superficial. Só o acha assim quem, ou esperava que ele fosse mais que um manifesto, ou crê em … “algo” e pretende combater o ateu malvado.

    O Donizetti (em dois posts) acredita que matar deus é legal pois libera (ou pode liberar) o super-homem preso em nós, mas acha que Dawkins errou o enfoque ao tentar tratar deus pela ciência. Confesso que achei sua argumentação curiosa, especialmente pq ele diz “Acredito que este questionamento [sobre deus] é muito mais político, filosófico e ético”. Uai, se o enfoque científico é errado, pq o político ou filosófico seriam mais acertados? Se a questão é limitar, que se considere que apenas argumentos teológicos podem ser usados (coisa que o André Egg sugere).

    No fim das contas, a questão é mesmo política, filosófica e ética, mas também científica. Não dá pra excluir a ciência assim com um tapinha que mata mosquitos. É bom lembrar que o método científico disponibiliza procedimentos que nos ajudam a confirmar se “aquilo ali enrolado é uma cobra ou uma corda” – e as religiões apresenta(va)m explicações sobre a origem da chuva, do vento, da terra e usa(va)m essas explicações como integrantes inseparáveis da tradição que porta(va)m. Assim, a ciência tem muito a contribuir com esse debate.

    • Paulo Soares disse:

      Ah… lembrei de uma coisa…

      Nossas cédulas de dinheiro louvam a deus, nossos tribunais têm um crucifixo, o Plenário da Câmara dos Deputados tem, além do crucifixo, uma bíblia sobre a Mesa Diretora… Estado laico? Onde?

      E olha que ainda tem escola pública em que os alunos têm de rezar antes da aula.

  4. é do Millor aquela frase “o estado é laico mas não é ateu”?

  5. Biajoni disse:

    o POVO não SABE como funciona a religião. ele está DENTRO da religião. tenho amigos que vão a culto ou missas por inércia – a maioria levado pelas esposas, casaram na igreja, tem essas relação de “proximidade” com a igreja -, são bancários, escriturários, cinegrafistas, pequenos empresários, atendentes de locadora… gente normal, manja?
    ;>)
    Não há, simplesmente, questionamento sobre a existência de Deus em qualquer nível. A vida e a crença são tocadas no automático. Nada de errado nisso, vai dizer? Acho que é esse pessoal que muitas vezes desperta e compra o livro do Dawkins e começa a questionar. “Ah, não, mas ali o Dawkins não está PENSANDO a religião!”. Está sim, e faz o camarada pensar. Acredito que seja essa faixa que compra o livro e para quem é direcionado.

    Mas acho que é difícil que o livro torne alguém ateu, mas acho que pode tornar pessoas agnósticas. No fundo, acho que é melhor que as pessoas não se preocupem com Deus ou a religião do que se envolvam seriamente com isso.
    :>)
    Como o Guto deu uma opinião pessoal, também dei.
    :>*

  6. Pingback: Dawkins é necessário – Biajoni

  7. Pingback: O ateísmo voltou à blogosfera | Outras coisas e afins

  8. Pingback: Guia incompleto de leituras sobre Dawkins e adjacências – A Terceira Margem do Sena

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