Duvido dos cibercéticos

O UOL Tecnologia e a Carta Capital reproduziram matérias sobre o recém lançado livro “Alone Together”, de Sherry Turkle. Para a socióloga do MIT, a comunicação por meio de redes como Twitter e Facebook pode ser considerada uma forma de loucura moderna. Estaríamos sob o risco de nos tornarmos menos humanos por causa das novas tecnologias de comunicação. As pessoas estariam se isolando em uma ciber-realidade que não passaria de uma imitação do mundo real.

Lewis Hine Empire State

A cidade e seus habitantes

Não li o livro. Falo a partir do que li na imprensa. Feita a ressalva, considero equivocadas as teses de Turkle. É muito estranha a concepção de natureza humana que a socióloga revela nas entrevistas. Que natureza humana é essa que se corrompe ao ser dominada pela tecnologia? Não é próprio do ser humano expandir suas possibilidades pela invenção e utilização de diversas tecnologias? Seria interessante verificar como a autora elabora esse tema em seu trabalho. Quando algo – um martelo ou o Photoshop, por exemplo – é usado por pessoas, esse uso só pode ser humano. Ainda que alguém possa não gostar da “humanidade” que emerge de certas utilizações, o uso será inescapavelmente humano.

Algumas pessoas racham as cabeças umas das outras com martelos; outras transformam gente em monstrengos nas edições de Photoshop para as capas de revistas. Essas ferramentas estão nos desumanizando? Não. Nós é que estamos humanizando as ferramentas.

O uso intenso do Twitter ou do Facebook não torna ninguém menos humano. Os seres humanos nascem condenados a serem humanos e contaminam o mundo com a sua humanidade. Para o bem e para o mal. Talvez seja possível diagnosticar um uso exagerado prejudicial das redes sociais e propor alguma mudança. Mas tanto o uso exagerado como a mudança serão realizações humanas.

Turkle cita um exemplo de como somos dominados pela tecnologia da informação que beira o ridículo. Foi a enterros em que as pessoas verificavam seus iPhones. Desde sempre as pessoas, às vezes com exceção dos parentes mais próximos, vão a enterros para fazer de tudo, menos participar da dor causada pela morte de alguém. Vão para colocar a conversa em dia, para comer, beber, passar o tempo. Se consultam o iPhone, é porque têm o aparelho à mão. Antes faziam coisas equivalentes.

As duas matérias, do UOL e da Carta Capital, fazem referência ( como se fosse uma confirmação das teses da socióloga do MIT) ao caso da moça que anunciou o próprio suicídio pelo Facebook sem que nenhum de seus 1082 “amigos” fizessem nada para ajudar. Os poucos que responderam acharam que ela queria apenas chamar a atenção. Colocam amigos entre aspas fazendo um juízo moral sobre a ausência da verdadeira amizade nas redes sociais. O fato é que só um idiota acreditaria que seus mil e tantos contatos numa rede social são amigos. Não raramente as pessoas são mais espertas do que os especialistas que analisam o seu comportamento.

Não há absolutamente nada de novo em um anúncio de suicídio ignorado. Morei em um condomínio onde uma mulher alcançou a morte se jogando do sétimo andar. Dias antes disse aos familiares: “Queria me matar, mas não quero estragar os carros que ficam estacionados lá embaixo”. Ninguém deu levou a sério. Acharam que ela só queria impressionar. Pulou pela janela no dia em que não havia carros no estacionamento.

Pode haver superficialidade, falsidade, ilusão nos contatos feitos pela internet? É óbvio que sim. Mas isso acontece também no mal chamado mundo real. Tal como no mal chamado mundo real, também pode haver profundidade, verdade e autenticidade nos contatos que se fazem pela rede.

Enfim, duvido muito de análises apocalípticas que vêem em tudo que é novo mais um sinal da decadência humana. A humanidade desde sempre foi e não foi decadente, porque não pode ser outra coisa a não ser humana.

Esse post foi publicado em Coisas do mundo, Mídia, Sociologia de Boteco. Bookmark o link permanente.

3 respostas para Duvido dos cibercéticos

  1. Mônica disse:

    E o povo adora chamar de desumanas as humanidades não edificantes…

  2. Pingback: Tweets that mention Duvido dos cibercéticos | Sociologia do Absurdo -- Topsy.com

  3. Paulo Soares disse:

    Não li os livros nem as resenhas, assim, vou escrever mais pq sou chato e o post me lembrou que não podemos separar o humano de suas (nossas) ferramentas.

    Aliás, a única coisa que nos separa dos outros animais é o uso intensivo de ferramentas.

    Tentei lembrar de autores para referir, mas no momento nenhum me vem a mente… enfim, de qualquer modo, é meio consenso que nosso próprio processo evolutivo vincula-se ao uso de ferramentas, mais ou menos com o polegar opositor permitindo o uso de ferramentas por hominídeos sei lá quantos milhões de anos atrás e esse uso reforçando (ou ajudando a selecionar) o desenvolvimento de uma mão extremamente hábil e as conexões neurais necessárias.

    O uso da linguagem (outro tipo de ferramenta) também seguiu pelo mesmo caminho.

    Assim, não há nem nunca houve um “ser humano puro” separado de ferramentas e não afetado por ela.

    Pensando em termos históricos e sociológicos, a invenção da enxada, do arado, do moinho, da charrua, do trator, trouxeram mudanças sociais e comportamentais profundas.
    Mais uma vez, é fácil perceber que nossas ferramentas e nós somos simbióticos e suas alterações nos alteram.

    É claro que impactos evolutivos do uso do computador e da internet não são mensuráveis, apenas impactos sociais e comportamentais. Todavia, essa ferramenta (a internet) é muito fetichizada. Ela é uma forma de comunicação extremamente eficiente. Que serve para laboratórios trocarem dados, pessoas fazerem fofoca, blogueiros opinarem e tunisianos derrubarem presidentes, mas daí falar em “reduzir nossa humanidade” e nos tornar mais frios, distantes, “falsos amigos”, é saltar o corginho de costas, né não?

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