Empregada doméstica é propriedade

Não vou falar de racismo. Recomendo a leitura dos posts do Alex Castro (leia também o mais recente que poderia estar na categoria raça, embora não trate apenas desse tema). Ainda sobre racismo, é indispensável o texto da Ana Maria Gonçalves no Biscoito Fino e Massa.

Programa Raul Gil

Raul Gil

Por que começar falando de racismo? Porque acho que o racismo é central quando falamos da triste instituição brasileira da empregada doméstica. “Tão perto, tão longe”. A mentalidade escravocrata sobrevive de várias formas, mas quando sobrevive bem debaixo de nossos narizes fica mais difícil detectá-la (ou mais conveniente esquecê-la). A empregada doméstica típica, que assiste as classes média e alta no Brasil, deriva diretamente do escravismo. Não me deixam mentir a senzala transfigurada no “quarto de empregada” e no “elevador de serviço”.

“Existem muitas empregadas brancas”, vão dizer os “idiotas da objetividade”. Mas o modelo de sociabilidade nessa instituição é escravocrata. É isso que importa.

Não costumo assistir à tevê aberta (quase não assisto também à tevê a cabo). O que não considero uma vantagem. Apenas um fato. Mas no último fim de semana me surpreendi com um anúncio do Programa Raul Gil. Cheguei a pensar que preciso ficar mais atento ao que é mostrado na tevê, aberta ou fechada.

Estão promovendo um concurso para eleger “A mais bela empregada doméstica” do Brasil. Como se o objetivo principal do concurso em si já não significasse um réquiem à subserviência em um país que está mudando, os organizadores não contiveram a memória da sociedade escravocrata. Memória que insistem em não deixar que se deite de vez na sepultura.

A empregada mais bonita ganhará 50 mil reais em barras de ouro. A PATROA (proprietária?)  também ganhará 20 mil reais! A página da inscrição toma o cuidado de alertar à doméstica distraída: “Coloque também o nome correto da patroa”.

Fiz uma rápida pesquisa pela internet. Posso estar errado, mas não vi uma única crítica a esse lastimável evento. Apenas reproduções que consideram a coisa toda muito interessante. Os programas de tevê descobriram, faz tempo, esse filão de faturar com a pobreza e a desgraça dos outros. Mas até nesse meio sem limites, há iniciativas que espantam.

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13 respostas para Empregada doméstica é propriedade

  1. Olá, Marcos!

    li o post e pensei sobre o assunto… não acho que seja tão grave assim. Calma, irei explicar: não é demerito ser empregada doméstica. Hoje nos EUA existem mulheres que abrem escolas apenas para ensinar a como ser uma funcionária que irá tratar da casa dos outros. Assim como vc, também não assisto Raul Gil rsrsrs, mas acredito que não seja ofensa e nem desgraça alheia, ser uma empregada doméstica. Não seria esse um pré- conceito nosso??? A funcionária da casa dos meus pais, possui um trabalho como todos os outros (alguns amigos com doutorado são mais escravos) ela entra às 9, sai às 15, e recebe tudo em ordem como qualquer assalariado, que possua um trabalho justo (de salário injusto, coisa do Brasil, mas injustiça não só para as empregadas domésticas) Acredito que mudanças de trabalho deveríam ocorrer em todas as nossas formas de cotidiano com o trabalho. Ele sim, em todas as áreas, devería sofrer alterações para se tornar mais humano, menos robotizado, menos burocrático e mais emocinal. Na Europa eles já tem feito isso e tem conseguido formatos de trabalho bem legais…

    • Carlos Magalhaes disse:

      Pois então, Cris. Também acredito que não é demérito fazer trabalho doméstico. O problema é o trabalho doméstico nos moldes da nossa velha instituição da “empregada doméstica”. E esse concurso infeliz vai nesse linha. Já é infeliz a idéia de escolher a “empregada doméstica mais bela do Brasil”. Mas pagar parte do prêmio à PATROA? Qual é a justificativa para uma coisa dessas?

      • Ótimo texto, Carlos! Acho que o problema é exatamente esse: que se eleja a empregada mais bonita do Brasil, mas não vejo nenhum sentido em pagar uma parte à patroa! Se a empregada é bonita, o mérito é dela, oras! No máximo, dos pais pela genética e dos recursos que ELA utiliza para se embelezar. A patroa não tem papel nisso, especialmente se considerarmos que que muitas exigem que a moça use uniforme, cabelo preso e unhas curtas e sem esmalte no trabalho – ou seja, se dispa totalmente de embelezamentos. É como um paradoxo: para ser empregada, não pode ser bonita.

  2. Virgílio disse:

    Naquele país ao norte do México e ao sul do Canadá eu não tenho a mínima ideia de como se dá essa relação.
    Na Europa inteira só MILIONÁRIOS têm empregada doméstica.
    Uma hora de faxina (estilo “paninho molhado”, como diz minha sogra) não sai por menos de 20 euros (façam as contas multiplicando por 3, pra facilitar a vida docês) A HORA. Sempre imigrantes ilegais, frise-se.
    Não consigo achar esse formato de moderna escravidão legal: é ilegal, é absurdo é desumano.
    Nunca tivemos domésticas aqui em casa. Questão, sobretudo, ideológica.
    Se cada um fizer as tarefas domésticas, das mais simples até a inexorável e odiosa limpeza de banheiros, curtindo o que está fazendo, não se tem necessidade de assalariar (e explorar e retirar mais-valia e etc) ninguém.
    Conheço muita gente boa que ainda investe na exploração dessa profissão em extinção.
    Raul Gil? Hebe Camargo? Fantástico? Tem umas internações psiquiátricas que eu defendo…

  3. Olá, Carlos! pois é, também acho esse universo cor de rosa trash muito deplorável…
    Mas ainda acho que trabalhos domésticos são tão dignos quanto levar pessoas de um lado pra outro da cidade, carimbar papel num banco ou dar aulas pra 25 alunos com mais de 20 anos que dormem a manhã toda sobre a prancheta… Todo tipo de trabalho pode ser prestado com ou sem dignidade, dar aulas em prédios acabados também não é justo, assim como carimbar papéis dentro de uma sala abafada e sem luz… Enfim, se forms pensar na quantidade de “serviços” que precisam ser prestados e de homens que precisam prestá-los, dentro da nossa sociedade, a lista é grande, e nem todos são um mar de rosas… o buraco é mais embaixo, como diria macunaíma, trabalhar? ai que preguiça….

  4. Pingback: Tweets that mention Empregada doméstica é propriedade | Sociologia do Absurdo -- Topsy.com

  5. Paulo Soares disse:

    Sobre a perspectiva das madames, os “amigos do presidente Lula” destacaram uma breve notícia da falha de SP: http://osamigosdopresidentelula.blogspot.com/2011/02/classe-c-cresce-e-folha-ve-estorvo-para.html

  6. Mônica disse:

    o duro é ver tosqueira tida como iniciativa bonita. coisa de “gente bonita”. só pode. aliás, odeio a expressão “gente bonita”.

  7. Pingback: Empregada doméstica é propriedade | Cheque Sustado

  8. valeria assis disse:

    Certo, não há demérito no trabalho doméstico, se ele é revestido com a dignidade esperada para qualquer trabalho. Indigno é mesmo a proposta do tal concurso. Além dos aspectos enfocados aí e que concordo, também há que se considerar a ditadura da beleza, especialmente sobre as mulheres. Assim, não basta ser empregada doméstica-subserviente-escrava, há que ser bela. Beleza aliás, a serviço da patroa. A tv aberta mantém-se firme e forte no seu investimento no grotesco. Lamentável.

  9. socorro disse:

    É muito bom poder falar aqui o que realmente acho disso tudo, pois sou empregada doméstica a mais de 30 anos e posso dizer que já passei por poucas e boas no decorrer desses anos todos na condição de doméstica. Mas nem por isso deixei de ser a pessoa que sou: integra! E outra: nunca me senti menor nem inferirior a ninguém, embora conviva com as indifecenças sempre. Não vou dizer que é fácil que não é, mas não é por isso que vou deixar de viver e sair por ai revoltada com a vida e chorando pelos cantos, muito pelo contrário, direciono meus pessamentos para coisas positivas para minha vida e da minha familia e para quem me respeita como ser humano que sou. Com mil defeitos porém rica de coisas valiosas e grande. Então por que me abater com coisas tão pequena? Quando penso que DEUS foi um exemplo de humildade pra que me preocupar com o resto?E quanto ao progra do Raul Gil, com certesa tem uma segunda intenção sim: alevancar audiencia, claro, assim como tantos outros programas de auditório. Principalmente quando se trata de condição social das pessoas, porque acho que de uma certa forma esse é um interesse de todos, pois vivemos num país de uma grande desigualdade social. Mas nem um outro teve a mesma iniciativa e coragem de prestar essa omenagem a uma classe tão desvalorizada e é por isso que parabeniso a direção do programa e a quem criou esse quadro.

  10. vanessa disse:

    olá amigos,amiga li e entendi o seu ponto de vista concordo plenamente com vc,por que tanto pre-conceito quanto a beleza,por que a preocupaçao delas em ver a sua fotografia antes de te contratar,saber se tem marido se tem filhos, eu sou e tenho trez filhas fui contratada e no ato da apresentaçao fui encarada de alto a baixo pela patroa,que ,me proibiu de entrar na cozinha quando o patrão estivesse nela e me disse para passar pela área, por fora quando ele estivesse na sala,e eu não trabalharia no sabado,pois ele estaria de folga,quando na entrevista ao tel; ela me disse que eu trabalharia em sabados alternados,meu trabalho não durou dois meses ela me despediu sem nenhum tipo de motivo e eu desempenhando meu trabalho com toda a dignidade e dedicação o que nos deixa com medo de mandar fotografia no curriculo,ou temos que mudar de profissão o que nos impede de fazer o que sabemos e aprendemos com as nossas avós e mães a sermos prendadas e organizadas,e amar a nossa profissão

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