Quem vigiará os vigias dos vigias?

Em matéria de “O Globo” sobre a “Operação Guilhotina”, o secretário de Segurança do Rio de Janeiro , José Mariano Beltrame, afirma:

Não vou abrir mão de qualquer tipo de parceria, de quem quiser me ajudar. O problema do Rio é antigo e sério e, graças a Deus, temos encontrado parceiros e acredito ter dado respostas a sociedade. Se eu fizesse sozinho prenderia 9,10,11 pessoas. Então eu digo que polícia nenhuma do mundo vira a página enquanto tiver em seus cargos esse tipo de gente.

Vale a pena pensar um pouco sobre a última frase: “polícia nenhuma do mundo vira a página enquanto tiver em seus cargos esse tipo de gente”. Depreende-se que há uma organização neutra, constituída por uma estrutura de cargos ocupados por indivíduos. Dentre os indivíduos ocupantes dos cargos, alguns seriam dados à prática da corrupção. Caberia então às “forças do bem” investigar e excluir os indivíduos que praticam a corrupção.

A prática da corrupção seria um problema de ordem individual, de certo tipo de gente. Fatores como os baixos salários, a falta de caráter, a baixa escolarização, a proximidade com o mundo do crime ou a impunidade são apresentados como explicativos da motivação INDIVIDUAL para a corrupção policial. Essa argumentação costuma convencer, ainda mais quando proferida pelos especialistas de plantão especializados, na verdade, em dar um ar douto ao pensamento de senso comum.

O que a análise sociológica nos diz é bem diferente. Sociólogos das mais diversas tradições de pensamento estão juntos na concepção de que o comportamento das pessoas é fortemente influenciado por padrões coletivos que independem da motivação ou escolha individual. Os padrões emergem das interações entre indivíduos, mas, uma vez estabelecidos, pautam as ações individuais. Como a sociedade é lógica e historicamente anterior ao indivíduo, não há vida humana sem os padrões.

Lewis Hine - Power House

Não se trata de negar a liberdade, que sempre existe. O fato é que os indivíduos encontram-se envolvidos em correntes de ação que os empurram numa ou outra direção. Sempre é possível nadar contra a corrente, mas nunca será fácil. Ser diferente é difícil e pode ser perigoso.

Qual seria o padrão dos padrões que nos envolve a todos nos dias de hoje? Um barbudo alemão já mostrou que é o capitalismo. Destacam-se dois aspectos essenciais da sociedade capitalista: a exploração da(s) classe(s) trabalhadora(s) pela(s) classe(s) proprietária(s) e a transformação de todas as coisas e idéias em mercadorias.

Se tudo é mercadoria, por que a informação sobre as ações da polícia contra vendedores de mercadorias (ilegais) não seria uma mercadoria? Se a informação é uma mercadoria, por que não vendê-la para quem tem o dinheiro para comprar?

A criminalização de algumas mercadorias cria novas mercadorias, agora privilegiadas, nas mãos de privilegiados. Se a mercadoria criminalizada significa dinheiro instantâneo nas mãos, por que não tomá-la dos desprivilegiados vendedores originais e vendê-la aqueles próprios supostamente responsáveis pela repressão à venda ilegal?

E se nessa sociedade de exploração do trabalho o trabalhador já não é indispensável ou, pelo menos, se um grande contingente de pessoas (ex-trabalhadores?) já não tem utilidade para o regime de exploração instituído? Por que não empregá-los temporariamente na venda de mercadorias ilegais e ainda colocá-los atrás das grades como os principais responsáveis por essa terrível anormalidade representada pelo tráfico de drogas nessa sociedade tão ordeira?

Enfim, o buraco é bem mais embaixo. É evidente que os policiais que se corrompem e se associam ao crime agem individualmente, pois o fundamento de qualquer ação é individual. Mas se queremos EXPLICAR SOCIOLOGICAMENTE a ação não podemos nos restringir aos seus fundamentos individuais. O fato é que cada sociedade abre as avenidas por onde os indivíduos tendem a transitar. Dinamitar avenidas é muito mais complicado do que dinamitar pessoas.

Esse post foi publicado em Criminologia, Drogas, Sociologia do Crime. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Quem vigiará os vigias dos vigias?

  1. Virgílio disse:

    Texto com ideias como socos que colocam a nocaute. Um, dois: fígado e baço. Não sei que pancada dói mais. Você explicar como tudo vira mesmo mercadoria, e aí a fala do ato falho do secretário não seria nem tão freudiana assim.
    Ou se começar a divagar que mercadoria pirata, como a mídia gosta de dizer, se a verdadeira pirataria não seria o controle policial da sociedade do crime.
    Como dizia o poeta, Carlos, não o outro, um outro:
    “Não há saídas
    só ruas
    viadutos
    e avenidas”.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s