Quem vigiará os vigias*?

Virgílio de Mattos[1]

O final de semana promete: já são doze os policiais civis presos por policiais federais, sob a acusação de corrupção, formação de quadrilha e o indefectível “associação para o tráfico” (que envolve desde o grito GALO DOIDO! Nas vilas e favelas de Belo Horizonte, até o fato de dar cobertura armada aos pontos de comércio varejistas).

Os mandados de busca e apreensão começaram pela 22ª DP, no bairro da Penha e 17ª DP, no bairro de São Cristóvão, ambos no Rio de Janeiro, colhendo computadores, documentos e munição.

Policiais do plantão pediram à imprensa, e foram atendidos, para não aparecerem nas fotografias, pois que seria “um constrangimento”. Oxalá todos os jovens presos, pelo menos doravante, não passem pelo constrangimento de serem fotografados, “escrachados” para utilizarmos a linguagem policial. Afinal, não dizem a lei e a lenda, que todos são iguais?

O princípio constitucional da igualdade tem que ser lido da seguinte maneira; “tratar desigualmente os desiguais na medida em que se desigualam”.

Por que o chefe da polícia civil carioca será ouvido pela polícia federal na questão de pagamento de propina, entenda-se corrupção, de comerciantes de substâncias ilícitas a policiais que deveriam coibir este tipo de comércio?

Foram expedidos 45 mandados de prisão. 12 trocaram de uniforme, embora a polícia federal não confirme. É que o serviço de inteligência da PF, desde 2009 tenta dar fim à “atuação de um grupo criminoso formado por policiais – civis e militares – envolvido no tráfico de drogas, armas e munições, com a segurança de pontos de jogos clandestinos e vendas de informações sigilosas”.

Quando os jovens sem nada, nem esperança, à margem de tudo, partem para fazer o que eles pensam seja justiça social, expropriando os que têm alguma coisa, a “tranca” é a única solução que se lhes apresenta.

E o bandido de uniforme, carteira e revólver? Pagos por nós, os “comédias” contribuintes compulsórios. Como dizem os presos: “aí tá embaçado”.

Chico Buarque, o mais talentoso criminólogo crítico já alertava desde os tempos da ditadura que a solução seria chamar o ladrão.


* Quis custodiet ipsos custodes? Juvenal.  circa I d.C.

[1] – Do Grupo de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade. Do Fórum Mineiro de Saúde Mental. Autor de Crime e Psiquiatria – Preliminares para a Desconstrução das Medidas de Segurança, A visibilidade do Invisível e De uniforme diferente – o livro das agentes, dentre outros. Advogado criminalista. virgilio@portugalemattos.com.br

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Uma resposta para Quem vigiará os vigias*?

  1. jorge tassi disse:

    Professor Virgilio,
    A retórica marxiana (e não marciana) de que o mundo se pauta numa dialética do material é absolutamente correta em relação à polícia. A Polícia age quando é economicamente o correto, desloca suas viaturas para os bairros em que o crime é mais visível (onde estão os ricos), e policiais se corrompem em vários sentidos, nos “bicos” para quem deveriam prender, vendendo a força de trabalho que nós já pagamos (sejamos claros, vendendo policiamento), barganhando com criminosos o uso da máquina policial, ou ainda, simplesmente no abrir e fechando maçanetas para que autoridades exerçam seu poder…
    Diversamente do que Honoré de Balzac pensava, infelizmente, há uma sociedade sem polícia…mas ele estava certo…a polícia é eterna!

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