Se a gente falasse menos, talvez compreendesse mais

Há algum tempo, nas provas finais de introdução à sociologia, apresentei duas pérolas do pensamento contemporâneo e indiquei aos alunos alguns conceitos a partir dos quais deveriam esboçar algum comentário. Abaixo as duas pérolas contra-indicadas para estômagos suscetíveis:

Um autor que tem vendido muitos livros escreveu: “se seus sonhos são pequenos, sua visão será pequena, suas metas serão limitadas, seus alvos serão diminutos, sua estrada será estreita, sua capacidade de suportar as tormentas será frágil. Os sonhos regam a existência com sentido. Se seus sonhos são frágeis, sua comida não terá sabor, suas primaveras não terão flores, suas manhãs não terão orvalho, sua emoção não terá romance. A presença dos sonhos transforma os miseráveis em reis, faz dos idosos, jovens, e a ausência deles transforma milionários em mendigos faz dos jovens idosos. Os sonhos trazem saúde para a emoção, equipam o frágil para ser autor da sua história, fazem os tímidos terem golpes de ousadia e os derrotados serem construtores de oportunidades”.

Atriz e escritora Maria Mariana (36 anos), que abandonou uma carreira de sucesso na televisão e no teatro para se dedicar à maternidade, disse em recente entrevista à revista Época: “Não acredito na igualdade entre homens e mulheres. Todos merecem respeito, espaço. Mas o homem tem uma função no mundo e a mulher tem outra. São habilidades diferentes. Penso nesta imagem: homem e mulher estão no mesmo barco, no mesmo mar. Há ondas, tempestades, maremotos. Alguém precisa estar com o leme na mão. Os dois, não dá. Deus preparou o homem para estar com o leme na mão. Porque ele é mais forte, tem raciocínio mais frio. A mulher tem mais capacidade de olhar em volta, ver o todo e desenvolver a sensibilidade para aconselhar. A mulher pode dirigir tudo, mas o lugar dela não é com o leme.”

Meu objetivo não era provocar uma crítica simples, uma “crítica pela crítica”, mas possibilitar ao aluno estabelecer uma articulação entre um conceito abstrato e uma situação específica. Ainda que o comentário fosse tristemente aprovativo, seria válido, dentro dos critérios avaliativos, na medida em que estabelecesse a articulação entre o conceito sugerido e a situação apresentada. Seja como for, está enganado quem pensa que li várias críticas às idéias expostas. Ao contrário, li muitas manifestações de aprovação.

A correção de provas é um teste de resistência para o professor. Resistência física e resistência moral. A primeira é óbvia. A segunda diz respeito à desconfortável sensação de ter falado para as paredes durante um semestre letivo inteiro. Não deixa de ser uma derrota, depois de um curso inteiro de introdução à sociologia, ler um aluno dizendo que “somos o que queremos ser” ou que “aquele que não sonha alto só pode chegar a um lugar baixo”. Derrota de igual tamanho é ler uma jovem (ler um jovem também seria igualmente ruim, mas haveria, pelo menos, a desculpa – evidentemente esfarrapada – de que fala por interesse próprio) repetindo que homens e mulheres são naturalmente diferentes, que os papéis de homem e mulher são complementares e que se ELE nasceu para segurar o leme, ELA nasceu com uma sensibilidade especialmente voltada para apaziguar e dirimir conflitos.

Uma das provas que corrigi estava bem escrita (razoavelmente bem, pelo menos). Melhor do que muitas outras. No entanto, revelava da forma mais completa o problema que descrevo. Além da incapacidade de articular conceitos e situações (o que seria ruim, porém esperado), a prova demonstrava uma completa alienação, um completo apartamento entre quem escreve e o que está escrito.

Suponho que essa incapacidade seja o sintoma de uma incapacidade generalizada de se reconhecer e de se estabelecer como sujeito (ainda que constrangido pelas estruturas sociais, mas sujeito). Na fala/escrita desses “não-sujeitos” a frase feita, evidentemente irreal, é assumida como se real fosse. O sentido das palavras não é pensado. Muito menos repensado. É como se as palavras fossem internalizadas em blocos pré-moldados para serem encaixados nos lugares pré-determinados. Entram e saem intactos, como pedras engolidas.

A carapaça de senso comum do significado convencional se impõe sem concorrência. O antídoto não está disponível. Os padrões  são internalizados sem que a competência ligüístico-cognitiva para contestá-los, ou simplesmente pensá-los, seja desenvolvida.

Não adianta nada lamentar por lamentar, é claro. É preciso compreender .

Pensando em alienação (apenas) como o ato de “alhear-se”, de transferir para outro o que seria próprio, não seria alienação entregar para um escritor de best-sellers de auto-ajuda ou para uma ex-atriz qualquer a definição de sua própria posição no mundo, na vida? Não seria (isso é realmente grave) alienação não ter acesso mínimo à linguagem natural de modo a reconhecer as entrelinhas de um discurso de dominação?

O fato é que vivemos em um sistema social que DESESTIMULA a crítica, o tempo todo. Na vida diária esse desestímulo se expressa em frases do tipo: “Ahh, [professor] [Carlos] [Fulano,Cicrano, Beltrano, etc.], você é TÃÃÃOOO CRÍTICO….” Como se “ser crítico” fosse intrinsecamente ruim. Em algumas situações, “ser crítico” é entendido/apresentado como sinônimo de “ser perdedor”. O conformista sai ganhando, diz certa sabedoria popular. Essa opinião não é nova, como nos mostra o Machado na sua Teoria do Medalhão.

Enfim, a sociedade capitalista-de-consumo é a-crítica. O comprador do kinder ovo zizekiano não critica. Espera ávido pelo próximo e efêmero lançamento. Seja o novo produto eletrônico ou mais um bloco pré-moldado de palavras para replicar nas conversas presenciais ou nas redes sociais virtuais.

Estamos reproduzindo e lidando com uma massa de analfabetos. Mas não falo de analfabetos no sentido estrito ou de analfabetos funcionais. Falo, se é que isso existe, de analfabetos cognitivos. Meros usuários de palavras e frases. Replicadores de mensagens cujos significados vêm e vão lacrados em um código fechado inacessível.

Segue uma longa citação de um artigo da Rita Segato (p. 222 – 223). Sua leitura deixa mais evidente o problema que abordo – a falta/incapacidade do olhar crítico.

O impulso ético é o que nos permite abordar criticamente a lei e a moral e considerá-las inadequadas. A pulsão ética nos possibilita não somente contestar e modificar as leis que regulam o “contrato” impositivo em que se funda a nação, mas também distanciarmo-nos do leito cultural que nos viu nascer e transformar os costumes das comunidades morais de que fazemos parte.

Para utilizar metáfora freqüentemente oferecida pelo cinema recente, é a pulsão ética que desinstala os chips cuja finalidade é tornar nosso comportamento automático. A pulsão ética nos permite fugir da automação: se a cultura é uma paranatureza, ou seja, uma segunda natureza ou programação não biológica, parabiológica, implantada em nós mediante o processo de socialização e coincidente, portanto, com nossa própria humanidade, o desejo ético, transcendente e complexo, leva-nos a vislumbrar o outro lado da consciência possível e nos possibilita ultrapassar a visão programada de uma época e desarticular o programa cultural e jurídico que a sustenta.

Somos plenamente humanos porque a mesma cultura que nos implanta os chips de valores morais e as práticas semi-automáticas a nos habilitar como membros de uma comunidade moral e “naturais” de uma sociedade juridicamente constituída, também nos equipa com as ferramentas que permitem detectar refletidamente esses mesmos chips e desativá-los. A isso alude o antropólogo Clifford Geertz quando, relançando conceitos já trabalhados por lingüistas desde o século XIX, afirma contarmos como humanos, ou seja, como seres de cultura, com padrões para o comportamento e padrões de comportamento (patterns for e patterns of behavior) e recorda a importante diferença entre ambos: os primeiros nos fazem agir, impulsionam a conduta, inoculados pelo processo de socialização que instaura nossa humanidade e nos possibilita a vida em comum; os últimos são esses mesmos padrões quando já identificados após um processo de análise cultural e de auto-análise. Os padrões para o comportamento automatizam a conduta; os padrões de comportamento são nossas apostas intelectivas a respeito dos moldes que nos fazem agir, já em sua versão reflexiva, como produto da tentativa de autoconhecimento por parte de uma sociedade ou de um indivíduo (Geertz, A interpretação das culturas). É neste segundo nível, devo acrescentar, que nos fazemos seres históricos, que exercemos algum grau de liberdade e autonomia e, portanto, damos plenitude humana à nossa existência, seja qual for a sociedade em que vivamos.

Reside, então, no trabalho reflexivo de identificação dos padrões de comportamento, a possibilidade da ética como impulso em direção a um mundo regido por outras normas, e do redirecionamento da vida – bem como de nossa própria historicidade – no sentido do trabalho constante de transformação do que não consideramos aceitável. Somos plenamente humanos não por sermos membros natos e cômodos de nossas respectivas comunidades morais e sociedades jurídicas, mas por estarmos na história, ou seja, por não respondermos a uma programação, da moral ou da lei, que nos determine de forma inapelável.

É disso que estava tentando falar. Da incapacidade ou da falta das ferramentas linguísticas e cognitivas necessárias para a transformação dos “padrões para o comportamento” em “padrões de comportamento”.

Pierre Clastres diz que “a qualidade do sentido e a quantidade dos signos variam em sentido inverso”. Vale a pena pensar nas possíveis correlações entre a incapacidade da crítica e a realidade atual em que as informações (mas não necessariamente o conhecimento) nos chegam em turbilhão.

(Continua…)

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4 respostas para Se a gente falasse menos, talvez compreendesse mais

  1. Guto, vc sabe que não sou muito socialista. Nem muito capitalista. Estou ali num desconfortável meio-termo que acha os dois lados bem sacais em seus exageros.
    Mas a crítica do consumo fora de medida que faço bate com a sua.
    O jovem de hoje (e os velhos também, mas é nos mais moços que mais me assusta) consome sem medida. Consome qualquer coisa que jogam no prato dele. Se jogam Luan Santana, ele põe chapéu de vaqueiro. Se jogam Marcelo Dourado do BBB, ele faz tatuagem e toma bomba. Justin Bieber? Vamos pentear franja pra frente.
    Sempre se consumiu. Mas antes se tinha a bondade de escolher uma tribo (as vezes de maneira estúpida) e daí, passa-se a CRITICAR as outras tribos. Mas não. Hoje o jovem quer aderir em tudo. Criticar é coisa de rabugento e velho, igual eu ou você. Critica saiu de moda.
    Não há problema em ser pluralista. Em ser eclético. Gostar de várias coisa tudo bem, mas de TUDO?
    O negócio é engolir tudo que passar na frente. E peraí, que eu vou deixar o cabelo crescer porque o Metal tá voltando com tudo.

    • Carlos Magalhaes disse:

      Pois então, Rodrigo. Gostar de tudo é meio “comer pedra”, entra e sai do mesmo jeito. Perto do meu trabalho tem uma música ao vivo e o cara com um violãozinho sem vergonha passa de uma dessas duplas urbanejas atuais para Pink Floyd. Na verdade ele muda as letras, pois só sabe tocar uma música. Quem engole isso não gosta de nada. Na verdade, gostar de tudo é igual gostar de nada.

  2. Alexandre disse:

    Guto, você, certamente, já se deparou com aquele sujeito que diz: “Ah, quando estou na roça, até gosto de ouvir um Zezé de Camargo & Luciano, pois combina com o ‘clima’ do lugar”. Eu, de minha parte, acho o seguinte: se um sujeito diz que gosta de Luiz Melodia e ao mesmo tempo adora a Cláudia Leite há algo de errado aí. O mais provável é que ele nunca tenha “escutado” nenhum dos dois.
    PS: A propósito, comprei a Caixa Preta do Itamar Assumpção. Coisa fina. Precisamos combinar de ouvir algumas coisas. Abraço.

  3. VIRGÍLIO disse:

    Prof. Carlos:
    Dá vontade de chorar ao ler essas perólas (isso mesmo: não pérolas, mas perólas) dos gênios que não querem ouvir e que pensam a “kulturkampf” como Salvador (“tudo tão lindo”), Arraial da Ajuda (de hoje), Paris (ah, Paris), Nova Iorque (“cidade onde acontece de tudo, cara”) e Rede Globo (“eles sim, têm um padrão de qualidade”).
    Pra eles auto-ajuda, pra gente auto-destruição (deles e um pouco da gente, obviamente).
    Fico triste.
    Mas não tendo tempo pra ficar triste só me resta resumir tudo isso em uma única expressão: “tipo assim véi” e resumir ainda mais pra uma única palavra
    CARALHO!
    Dá vontade de vomitar e olha que o carnaval nem chegou ainda…

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