Pergunte ao Seo Zé

Por Virgílio de Mattos[1]

Um dos trabalhadores com o qual mantenho uma longa relação de amizade (são quase 40 anos!), tem reduzida formação acadêmica, teve pouco ou nenhum acesso à educação formal, mas é dessas pessoas geniais que, tirando um gravíssimo defeito de mau gosto pra torcer pra time de futebol, é uma daquelas pessoas com as quais a gente gosta de se aconselhar e se sente seguro em ouvir sobre que rumo tomar, nessa ou naquela encruzilhada da vida. Onde ir?

Hospício de Barbacena - Telhado

FOTO DO TELHADO DO HOSPÍCIO DE BARBACENA - O MODELO HOSPITALOCÊNTRICO JÁ ESTÁ EM RUÍNAS. E O PENALOCÊNTRICO, QUANDO?

Nesse caso a resposta é sempre óbvia e ele já começa a sorrir com os olhos, que faíscam: “Isquenta a cabeça, não. Primero ocê tem que vê que ombinus que passa lá”.

Resolvido o problema de “para onde vou”, gosto de provocá-lo com a previsão do futuro, sempre incerto, embora saibamos ambos o futuro do futuro do direito. Aliás, só conseguimos enxergar o futuro do futuro do direito penal, que obviamente é a vingança privada, mas isso talvez só caiba – pelo tamanho da discussão – em outro espaço.

Quero sempre saber, nesses terríveis dias de verão e seu redundante calor mortífero, se vai chover e quando. “Ó –respira fundo – com esse calor dimais capaz que chove. Mais pra frente chove. Se dé di num chuvê, piora. Ocê acha que num pode fazê mais calor do que já faiz?”

Às vezes ele inverte a pergunta e também demonstra um certo desespero.

Prole numerosa, provedor de gerações, trabalhando firme ainda hoje, embora aposentado, é uma pessoa que tenho enorme prazer de ouvir, nos nossos raros contatos hoje em dia, sempre que posso. Perguntar ao Seo Zé, como sempre carinhosamente o chamei, sobre qualquer assunto, tem-se a certeza de uma resposta franca, imediata e, sobretudo, extremamente reduzida.

Uma única vez me lembro de tê-lo achado profundamente burro – você imagina o que seja isso numa amizade de quase 40 anos? –; foi quando ele sofreu um grave acidente (atropelado por um ônibus, a caminho do trabalho) e seu desespero maior era não poder voltar a trabalhar.

O prazer que restou ao Seo Zé foi o trabalho. Fazer o mesmo trabalho. No mesmo lugar. O mesmo posto de trabalho.

Pergunte ao Seo Zé se ele entende a exploração do homem pelo homem. É óbvio que Seo Zé conhece, desde que nasceu, a exploração. Sempre trabalhou duro e muito. Cotidianamente. Estar ligado ao seu local de trabalho é estar no mundo. Tem consciência que existe a exploração mas não a sente. Talvez com os outros, não com ele. “Mais é Deus”.

“Ostrudia mez eu lembrei da sua mãe. Sinto sodade da sua mãe”.

Crime? “Tudo igual. Ruim mez é que agora ez insina na televisão. Só prendi pobre.”

Qual o final do controle, no fundo do fim? Haveria uma solução que não fosse final? Uma forma de punir que não fosse o controle penal?

“Capaz que chove”.


[1] – Do Grupo de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade. Do Fórum Mineiro de Saúde Mental. Autor de Crime e Psiquiatria – Preliminares para a Desconstrução das Medidas de Segurança, A visibilidade do Invisível e De uniforme diferente – o livro das agentes, dentre outros. Advogado criminalista. virgilio@portugalemattos.com.br

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