Os replicadores estão chegando (já chegaram)

Criei uma categoria no blog chamada “Posts Requentados” para resgatar alguns textos dos meus blogs falecidos que gostaria de manter no ar (ainda que alterados). A informação sobre as categorias aparece no rodapé dos posts. Este e o anterior vêm do “Imaginação Sociológica”. Na postagem original, fazia referência ao “Em busca da anti-autoria perdida”, do Algodão Hidrófilo, como inspiração. Parece que a Flávia está voltando a blogar. Boa notícia!

Um post recente do Idelber me parece associado ao texto não muito bem acabado que apresento a seguir. Não espere por conclusões. Trata-se apenas de uma idéia a ser explorada: a multiplicação exponencial dos replicadores de informação.

Nos últimos tempos as coisas estão se precipitando de uma forma torrencial. Pode ser que vários elementos que foram se configurando a partir da segunda metade dos anos 1990 estejam agora transbordando. Penso especificamente na revolução proporcionada pela WEB e num possível salto qualitativo que estaria acontecendo agora. Para citar apenas três situações emblemáticas, podemos apontar a morte da indústria fonográfica, as dificuldades da mídia tradicional e a crise da legislação dos direitos autorais provocada pela facilidade da reprodução eletrônica.

Cortázar escreveu no “Histórias de Cronópios e Famas” (1962):

Cada vez más los países serán de escribas y de fábricas de papel y tinta, los escribas de día y las máquinas de noche para imprimir el trabajo de los escribas. Primero las bibliotecas desbordarán de las casas; entonces las municipalidades deciden (ya estamos en la cosa) sacrificar los terrenos de juegos infantiles para ampliar las bibliotecas. Después ceden los teatros, las maternidades, los mataderos, las cantinas, los hospitales. Los pobres aprovechan los libros como ladrillos, los pegan con cemento y hacen paredes de libros y viven en cabañas de libros. Entonces pasa que los libros rebasan las ciudades y entran en los campos, van aplastando los trigales y los campos de girasol, apenas si la dirección de vialidad consigue que las rutas queden despejadas entre dos altísimas paredes de libros.

Mas Cortázar não sabia dos HDs medidos em terabytes , da banda larga, das redes sem fio e do fluxo de dados que já alcança petabytes. Vivemos imersos em palavras e imagens, mas elas não estão apenas impressas em papel e não constituem somente o nosso piso e as nossas paredes. Estão no ar que respiramos. Circulam, fluem, nas redes wireless a partir de finíssimos discos magnéticos interligados.

É sabido que as informações se distribuem socialmente (estou pensando especificamente em textos ou imagens impressos e publicados em papel ou gravados  em mídia digital e transmitidos por via eletrônica). Em qualquer época, existem os produtores/publicadores e os consumidores. No passado havia simetria. Produtores/publicadores e consumidores formavam uma única comunidade. O acesso era muito restrito. Penso na reprodução manual de livros anterior aos tipos móveis. Poucos sabiam decifrar a escrita. O produtor consumia e o consumidor produzia, todos integrantes de uma mesma comunidade.

Paulo Leminski

A expansão da alfabetização e a facilidade de divulgação por impressão em papel ou mesmo por meio do rádio e da televisão criaram uma situação em que produtores/publicadores e consumidores passaram a ter outra relação. Alguns poucos, como sempre, publicavam (empresas de comunicação), mas muitos consumiam.

Depois da internet e das facilidades de acesso à informação e de sua reprodução por meios eletrônicos tudo muda na relação entre produtores/publicadores e consumidores de informações.  Muitos produzem/publicam (não apenas as empresas de comunicação) e muitos consomem.

Mas o que mais me intriga nessa nova situação é a multiplicação e renovação de uma figura que antes não tinha grande relevância: o replicador (alguém que usa o velho email ou as redes sociais para simplesmente passar informações pra frente). Quem nunca replicou que atire a primeira pedra!

O replicador é alguém que, por definição, não tem muito tempo (ou disposição) para pensar no que está replicando. As informações replicadas circulam em pacotes fechados. Os pacotes guardam significados, mesmo quando o replicador não se dá conta. O replicador corre sempre o risco de ser cúmplice de mentiras ou preconceitos que saem cada vez mais fortalecidos. O fato de muita gente não atenta para o significado do que está ajudando a espalhar, faz com que a informação ganhe uma espécie de vida própria.

O Idelber abordou um aspecto dessa situação – A presunção de inocência na época da reprodutibilidade digital – de forma instigante.

(De ontem pra hoje alguém postou a ficha falsa da Dilma no Facebook. O replicador teve o “cuidado” de dizer: “Apenas repassando. Eu apenas repasso a informação”. Como assim, cara pálida? Você repassa a informação e todos os significados que ela carrega. Os significados trafegam pela rede.)

Não se trata de algo exatamente novo. Boatos sempre existiram. Bordões sempre foram repetidos pelas pessoas. O diferente é o enorme volume e a velocidade estonteante que a prática de replicar ganhou com a internet.

Dentro da atividade replicadora, um aspecto talvez menos grave, mas que não deixa de ser irônico (e sintomático) é o fato de autores como Paulo Leminski e Clarice Lispector terem se transformado em aplicativos do Facebook. Autores que propuseram uma reflexão profunda sobre a linguagem são agora replicados em pacotes fechados e, em geral, descontextualizados. Suas frases e versos são recortados e transformados em “pensamentos”.

Há muito tempo esses “pensamentos” recortados circulam nos almanaques de variedades impressos.  Muita gente lia. Agora quem lê na rede pode curtir, compartilhar, replicar. Não deixa de ser interessante investigar a motivação (ou ausência de) das pessoas para a replicação de certos conteúdos.

O que aconteceria com alguns dos replicadores do “Leminski do dia” se eles se deparassem com o Catatau?

Esse post foi publicado em Coisas do mundo, Posts requentados, Sociologia de Boteco. Bookmark o link permanente.

16 respostas para Os replicadores estão chegando (já chegaram)

  1. Virgílio disse:

    Por falar nisso I
    outro serviço de utilidade pública, Carlos, seria colocar um link para o Catatau ou os poemas do Leminsk.
    ocê sabe dizer (afinal este blog é pura cultura)?

    Por falar nisso II
    Que fiasco a manifestação (powered by CIA) antiCuba em Cuba, já viu?

    Por falar nisso III
    Como foi o campo sábado?
    Fotos Cuba Hoy en Flickr

    Museo de la Revolución 6 pm 21 de febrero: Levantamiento de Amor.

    http://www.flickr.com/photos/fotos_cuba_hoy/

    Videos CubaHoy en YouTube
    El papelazo del levantamiento popular en La Habana, 21 de febrero 2011 http://youtube/yk2XvU0tfS8

    Blog Cambios en Cuba
    Del muro “Por el Levantamiento popular en Cuba” al Muro de los lamentos …anticubanos
    http://cambiosencuba.blogspot.com/2011/02/del-muro-por-el-levantamiento-popular.html

    Plataforma BlogCIP
    La Habana está tan tranquila como cualquier día del año

    http://cubaenfotos.blogcip.cu/2011/02/21/habana-tranquila-cualquier-dia-del-ano-levantamiento-cuba/

    • Carlos Magalhaes disse:

      Virgílio, vou providenciar os links. Você sabe que é co-autor disso aqui, né? Você só não tem a chave da casa porque não sabe onde fica o buraco da fechadura.

  2. Lia Drumond disse:

    Já arrumei briga por pedir que não façam spam antes de pesquisar o conteúdo de coisas alarmantes… Não entendo como as pessoas não sentem vergonha por repassar mentiras. Mas a preguiça quando não mata, aleija…

  3. Pingback: Tweets that mention Os replicadores estão chegando (já chegaram) | Sociologia do Absurdo -- Topsy.com

  4. Nossa, Carlos,
    esse é, eu acho, um assunto complexo: a internet trouxe a criação de um espaço virtual de publicação para o mal e para o bem. A questão da autoria, ou da fulanização, como disse o Idelber, é mais uma face dessa era da informação sem tempo pra reflexão. Ou você repete o chavão (se todos dizem é porque É), ou repete o que Alguém disse, ou você vira um especialista em algo e não reflete sobre mais nada (nem tenta estabelecer conexões entre a sua especialidade e o mundo).
    Não dá para botar a culpa na internet. Para mim a replicação impensada é só uma das facetas da coisa, mas é filha da vidinha louca sem tempo para a Vida. Nela construímos relacionamentozinhos sem sal, pois não temos tempo nem de nos relacionarmos com nós mesmos, quanto mais com outros. Mas nós precisamos desesperadamente dos outros.
    Sumiu o espaço do relacionamento real, mas isso não quer dizer que o homem seja capaz de ser uma ilha: ele se lança nas redes sociais de forma tão convulsiva que creio que falar em desespero chega perto do que isso é de fato: “você tem 365 amigos” (um para cada dia do ano?), 890, 3770, 9 bilhões… (sabe-se lá quando essa conta para).
    .
    Fala-se em “5 minutos de fama”, mas cheiro que isso risca de leve a superfície do fenômeno: a extrema solidão do homem moderno, sua extrema falta de vida na vida, que ele tenta preencher com Facebook e o seriado Friends. A informação replicada vira uma mera desculpa para mandar um e-mail, pois essas relações são frágeis como sinapses que se não reativadas vão se perdendo.

    Mas eu também creio que ainda estou na superfície do fenômeno. Mas quando a informação está sendo compartilhada no desespero de compartilhar algo, qualquer coisa, rápido, o conteúdo desse compartilhamento pode chocar quem está em busca de reflexão.
    Mas Nietzsche, aquele louco, já dizia – isso antes da internet – que os livros dele eram para poucos, porque são poucos os seres que pensam como ele – ruminantes do pensamento. Reflexão de verdade sempre foi algo de poucos (isso sem querer passar um tom “elitista” nem nada, uma constatação). E quem faz isso muito corre o risco de ficar só.

    (a propósito, aquele texto meu da autoria – fui reler – é bem pentelho, na minha modesta opinião)

    • Carlos Magalhaes disse:

      Flávia, é muito bom ler os seus comentários novamente! Concordo com você. Acho que a internet não trouxe algo novo. Mas intensificou coisas que já existiam. Quanto aos ruminantes do pensamento, são sempre minoria da minoria mesmo. Só que agora, com a internet, temos os pacotes de “pensamentos” que podem ser replicados e os motivos são vários. Desde emular uma conexão social inexistente até dar uma de que está por dentro. Mas ainda vou ruminar um pouco sobre o seu comentário.

      Ah, o seu texto não é pentelho!

  5. Paulo Soares disse:

    Creio que vivemos um momento “invenção da imprensa”.

    Imagino as pessoas no século XV pensando, “a produção de um livro requeria cuidado. Sua leitura, dedicação. Agora, com a facilidade de reprodução, as pessoas não têm tempo de ler ou não o fazem com a devida profundidade”.

    Como a Flávia escreveu, a leitura ‘tipo ruminante’ é e sempre foi coisa de poucos.
    De modo geral, trocamos signos linguísticos não apenas por seus significados literais – por seu sentido após uma leitura ruminante. Assim, quanto te repasso um e-mail com um texto “profundo” atribuído a Clarice Lispector, por exemplo, não tô só te passando o texto por suas palavras, mas tô dizendo “olha como sou culto, conheço essa tal Clarice”.

    Mas, o mais interessante é perceber como as citações vão ficando cada vez mais curtas… afinal, têm de caber no twitter.
    Foi o Saramago que disse (algo parecido com) “de revolução tecnológica em revolução tecnológica, acabaremos no grunhido?” (e olha eu replicando [e distorcendo] aê gente!)

    • Carlos Magalhaes disse:

      Paulo, acho que tem muito a ver com o que a Flávia disse. Criar algum tipo de conexão. Se estou numa rede social, tenho de socializar, não é? É mais fácil replicar os pacotes prontos do que produzir alguma coisa (sem fazer nenhum julgamento de valor).

      Tenho antipatia de afirmações como essa do Saramago. Como você disse no seu 1º parágrafo, no século XV já deviam reclamar das facilidades de reprodução dos livros. E o que é grunhido para um, pode ter vários significados para quem quiser interpretar.

      Meu ponto é esse: é interessante investigar as motivações e significados da replicação. E isso quer dizer investigar as minhas próprias motivações para e os significados mais ou menos escondidos naquilo que também replico.

      Confesso. Eu também replico😉

  6. A flávia diz não termos “tempo nem de nos relacionarmos com nós mesmos, quanto mais com outros”. Poxa, a vida prática nos consome demais. Depois de oito, dez, doze horas de trabalho ainda temos de estudar, nos atualizarmos, nos relacionarmos com pessoas que interessam ao trabalho… Isso tudo para manter um padrão de vida razoável.

    E aí, o tempo que nos sobra para sermos humanos e nos desenvolvermos como tal é quase nenhum.

    É por isso que ruminar uma leitura e pensar por si próprio é uma atividade dificílima. Mas, como as pessoas querem tentar se diferenciar principalmente demonstrando erudição, pegam qualquer texto, qualquer citação, qualquer informação que lhes pareça “cabeça” e passam pra frente. Não se dão ao trabalho de fazer sequer uma introdução.

    Depois que bloqueio o cara que enche minha caixa com spam ele fica perguntando: e aí, recebeu aquele convite pra minha festa não? E eu ainda respondo: claro que não, depois daqueles milhões de spams você sempre vai direto pra lixeira…

    • Carlos Magalhaes disse:

      Caceres? Você é aquele das antigas, dos tempos longínquos do Neosaldina com Coca-Cola?

      Então. Pelo menos parece que o Facebook dá vazão a uma parte do ímpeto replicador e alivia um pouco o nosso email.

      O que tem me intrigado mesmo são os tais “aplicativos” do Facebook. Eu tenho certeza de que muita gente replica o “Conselhos de Caio Fernando Abreu” não tem a menor idéia de que foi Caio Fernando Abreu. É curioso.

      • Hahaha. Sou aquele Caceres mesmo. Você lembrou… que engraçado, imaginava que você nunca iria lembrar.

        Muito bom você ter voltado. Eu tinha uma certa saudade dos seus textos. Aqui, acolá voltava ao ncc pra reler alguma coisa. Afinal, eram tantas coisas pra lembrar. Nem sei quantas vezes reli a de Gardel no táxi com uma Heineken. Foi lá que ouvi falar do Cortázar. Com quem até hoje me encanto.

        E não tenho facebook, não sei como é. Mas, em breve, por questões profissionais, vou aderir a todas as redes sociais possíveis e imaginárias. E aí é ter paciência com o bombardeio.

      • Lia Drumond disse:

        “Eu tenho certeza de que muita gente replica o “Conselhos de Caio Fernando Abreu” não tem a menor idéia de que foi Caio Fernando Abreu. ” (2)

      • Eu nunca repliquei, mas também não conhecia. Parece que ele tem uma obra interessante.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s