VEM CHEGANDO A MODERNIDADE!

[O Virgílio é um grande amigo, daqueles que têm muito a dizer, e que está precisando fazer um blog próprio. Enquanto esse blog não vem, a sorte é dos amigos que recebem os seus textos no melhor espírito copyleft. O texto que segue foi enviado para mim e para o professor José Luiz Quadros de Magalhães (Apesar do Magalhães compartilhado, não somos parentes consanguíneos. Mas somos parentes nas idéias e na visão de mundo).  Para ler o post no blog do professor Zé Luiz, clique aqui. Aproveito para indicar enfaticamente o blog do Zé Luiz, especialmente para os estudantes de Direito. O Virgílio perguntou se haveria problema em publicarmos o mesmo texto nos dois blogs. Não há o menor problema. As idéias têm de circular. E quanto mais melhor. Não podemos encerrar as idéias na pobre lógica mercantil da sociedade capitalista que não vê nada além do lucro. Sim, existem os direitos do autor. Mas o direito de TODOS terem acesso às idéias é mais importante. Afinal, as idéias são públicas e construídas coletivamente. O conhecimento privado atende apenas aos privilegiados de sempre e não favorece a emancipação social. Somos contra a privatização do conhecimento e dos saberes. Somos, sim, a favor da liberação do conhecimento e dos saberes (inclusive os não-hegemônicos). Algum conformista pode dizer que gostamos de dar murros em pontas de faca. Gostamos. Dar murros em pontas de faca é uma atitude ética necessária nesses tempos em que a lógica gerencial predomina. Essa atitude ninguém nos rouba.]

 

Caminhão

A modernidade vem chegando

 

Virgílio de Mattos[1]

Fico com medo de pensar que passados alguns séculos, com o capitalismo enfim terminado, a espécie humana terá pouco do que se orgulhar, haverá alguma coisa para comemorar?

E o inquieto do final do século XV, pensava o quê? Será que sonhava com alguma coisa que pudesse substituir, no campo da ciência política, o poder ilimitado do soberano; no direito penal, a pena de morte; no campo dos costumes, alguma coisa próxima a libertação do que sufocava e pesava, por exemplo?

Nos séculos XV e XVI encontramos o berço sujo da legislação sanguinária contra os “desviantes”, quando sequer tinham ainda esse nome.

Fico apavorado quando descubro que será possível, esgotada a modernidade que vem vindo, falarmos em pós-modernidade. Haverá a morte sem corpo? O Corpo sem alma? A alma sem culpa? O que haverá depois da morte senão Céu e Inferno? Haverá depois? Isso pensava o inquieto do final do século XV, sonhando com o poder nacional, plural e, por que não delirar meu povo?, com igualdade, fraternidade e liberdade.

A libertação dos trabalhadores deverá ser obra dos próprios trabalhadores, dirão as massas de famintos que trocavam a jornada de trabalho por um pouco de carvão e pão no século XIX. Na verdade isso dirá Marx, que cuidará de tentar minimamente dar o lastro científico à libertação das massas que trocavam a jornada de trabalho por um pouco de pão e carvão. Na verdade repetida farsa como história: os trabalhadores recebiam, como salário, apenas o mínimo essencial para sobreviverem, apenas para manterem-se vivos até a exaustão literal, quando então eram descartados como imprestáveis peças, ou resto.

Crianças morriam nas fábricas, quando havia fábricas. As jornadas enlouquecedoras de 14, 16 horas sofriam redução sensível: alguns patrões já admitiam a jornada de “apenas” 12 horas.

E eu que penso no futuro sonho com uma terra sem amos e senhores…

Vem chegando a modernidade, mas de seguro mesmo só temos o carnaval. Vá com tudo, mas vá com calma. O controle penal está aí no seu calcanhar, meu chapa. No carnaval do Rio, ano passado, a moda era prender mijões; em Salvador presos em contêiner tiveram um carnaval pouco agradável. Fico pensando que moda lançará o controle total nesse carnaval. Pelo baticum da bateria, dá medo.

 


[1] – Do Grupo de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade. Do Fórum Mineiro de Saúde Mental. Autor de Crime e Psiquiatria – Preliminares para a Desconstrução das Medidas de Segurança,A visibilidade do Invisível e De uniforme diferente – o livro das agentes, dentre outros. Advogado criminalista. virgilio@portugalemattos.com.br

Esse post foi publicado em A Gerência, Colaborações, Sociedade do Controle. Bookmark o link permanente.

3 respostas para VEM CHEGANDO A MODERNIDADE!

  1. Virgílio disse:

    Carlos meu chapa, agradeço as palavras gentis mas eu não tenho a MENOR CONDIÇÃO de fazer um blog.
    Se eu puder continuar mandando as coisas pra você, semanalmente, me dá um prazer muito grande.
    Zé pediu também, mas ele não consegue por as fotos.
    Gosto mais (velho é um problema!) da foto com a legenda e o texto, do que propriamente do fato de ter um blog o que me demandaria um “diálogo” computacional que não sei sequer se quero ter…
    Burro velho é difícil de aprender truque novo.

    • Carlos Magalhaes disse:

      Seus textos serão sempre muito bem-vindos aqui, Virgílio. É um prazer publicá-los. Mandei uma explicação para o Zé Luiz para colocar as fotos. Estou à disposição para tirar as dúvidas.

  2. Eu acredito que haverá muito a comemorar. Apesar de estarmos sempre insatisfeitos. O Estado em crise, sociedade em crise, governo em crise… sempre estará em crise. esse fim do capitalismo nem sei se vai terminar num sistema melhor. diferente será, mas talvez o camaleão só mude de cor E paro pra pensar que a modernidade vem só se atualizando, o capitalismo vai se atualizar (lá no Idelber discute-se a atualização do populismo) Quebra mesmo, ruptura mesmo, é bem mais difícil Mas é possível O sol pode não nascer amanhã… pode. Mas, principalmente em questões sociais, as coisas não acontecem do dia para a noite Tá tudo acontecendo aí Pera aí que me perdi um pouco e fiquei confuso. Vou ali que um amigo pós-moderno tá me chamando pra bater um papo.

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