Todo destino humano é, antes de tudo, humano

A sala era retangular e pequena, talvez uns 10 metros quadrados. As paredes não tinham uma cor definida, pelo menos não o suficiente para ficar na memória. Havia, numa das extremidades do retângulo, uma mesa de escritório, dessas metálicas azuladas com o tampo de fórmica. As janelas ficavam na outra extremidade e eram altas e fechadas por uma grade aramada. Ouvia-se um barulho alto, como o dos recreios de escola, mas as vozes eram de adultos. Por volta das 11 da manhã o cheiro da comida se misturou com o cheiro de suor que antes predominava. Debaixo da janela, estávamos sentados eu (segurando um gravador) e minha assistente de pesquisa (tomando notas em um bloco de papel). Diante de nós, sentavam-se dois rapazes, um de de 24 e o outro de 25 anos. Eles estavam algemados, com as mãos para trás. Vestiam bermudas e camisetas daquelas que são vendidas em supermercados. Calçavam chinelos de dedo. Ao nosso lado, um policial segurava uma espingarda calibre 12 e assistia à e a conversa.

Algemado

Todo destino humano é, antes de tudo, humano

Apesar de toda a estranheza, tentávamos conversar. Queríamos conhecer um pouco mais sobre aqueles indivíduos de quem muito se fala, mas de quem muito pouco se sabe. Pois a partir do momento que são etiquetados como criminosos, bandidos, vagabundos é como se nada mais precisasse ser compreendido. É como se bastasse a nova etiqueta para que aquela que nos define como humanos fosse cancelada.

Essa é uma grande mentira. Por piores que tenham sido os seus atos, não deixaram de ser humanos para praticá-los. Ao contrário, talvez os tenham praticado por serem demasiadamente humanos. A ficção de que os “homens de bem” não fazem o mal é mais confortável do que a realidade de que o mal é um dos sobrenomes de todos nós humanos.

A humanidade daqueles dois se manifestava no prazer de ter dinheiro e poder gastá-lo sem preocupação. Prazer de satisfazer vontades e necessidades que todos nós temos (e, talvez, ainda seja preciso lembrar que as necessidades da fantasia são mais importantes do que as do estômago).

Pensando bem, viver com pouco dinheiro, numa sociedade em que tudo é dinheiro, é uma das maiores indignidades a que um ser humano é submetido ou se submete. Não poder comprar uma roupa nova, ter de andar em ônibus lotados mais apertados do que caminhões de gado, não poder ir a um médico que nos olhe nos olhos, não poder consertar os dentes quando estragam, não poder comprar um presente para uma pessoa querida (não me esqueço de uma vez, trabalhava em um boteco, quando vendi a um rapaz de uns 20 anos, um pacote de biscoitos recheados de uma marca barata que ele daria de presente à namorada ).

O que seria mais insano? Deixar-se acostumar com a falta de dinheiro, com a falta de conforto, com a falta de saúde, com a falta de dentes, com a falta de tudo? Ou se revoltar contra toda a indignidade, saltar para o lado de lá do muro e dar uma banana para a insanidade geral que governa este planeta?

Nossos destinos, nossas escolhas, nossas apostas, tudo isso é incomensurável. Só uma coisa é certa: qualquer destino, qualquer escolha, qualquer aposta é, antes de tudo, humana. Por mais que isso nos incomode. A nós, cidadãos de bem.

Voltando àquela sala feia. O que diferenciava a mim e a minha assistente dos dois rapazes que estavam à nossa frente? A verdadeira diferença, a diferença essencial, é que eles estavam algemados com as mãos para trás e, depois de nossa estranha conversa, voltariam para as suas celas.

Esse post foi publicado em Criminologia, Posts requentados, Sociologia do Crime. Bookmark o link permanente.

8 respostas para Todo destino humano é, antes de tudo, humano

  1. Emerson Monteiro disse:

    Parabens pelo blog prof. Alias, obrigado pela iniciativa.
    Sds.

    Emerson

  2. Virgílio disse:

    Carlos, texto lindo, de emocionar.
    Deveria ser obrigatório antes da apresentação de todo noticiário “mondo cane”.
    Seja mané, seja mano nem mesmo os “desapiedados facínoras” – como dizia a mídia dos anos 20, do século XX- escapam dessa grande família: a de seres humanos.
    A diferença é que vai produzir a identidade ou identidade também é coisa que só a polícia pode cuidar? Rosi prefere Lacan, ele mesmo.
    Fico feliz de poder saber ler é numa hora dessas.
    Assim dá gosto o carnaval!

  3. Fernanda Antunes Guedes disse:

    Quando se vive uma experiência desse tipo fica difícil diferenciar a nossa vida “comum” do mundo marginal que estas pessoas vivem… De repente o que estaria a margem da sociedade passa a ser o comum… Ainda me lembro das roscas e pães diversos que os presos faziam especialmente para minha avó e para a minha mãe e que eu trazia para minha casa todas as semanas.
    Parabéns por expor com tanta emoção esses valiosos momentos. E mais uma vez, parabéns pelo blog!
    Beijos,
    Fernanda

  4. Se todos tivessem de viver essas experiências as pessas discutiriam mais ressocialização, mesmo embora a ideia de ressocializar não me soe muito bem. A palavra humanização foi tão desgastada que perdeu-se. A democracia, ai, a democracia foi se perdendo, se perdendo. Como eu queria tirar a dignidade da pessoa humana da letra fria da Constituição e transformá-la em ao menos tentativa de transformar a realidade…

    • Carlos Magalhaes disse:

      Caceres, essa palavrinha, ressocialização, é de dar arrepios. Na prática não passa de convencimento pela força e pelo sofrimento de que é melhor aceitar a indignidade e viver com ela.

  5. Carlos Magalhaes disse:

    Obrigado, Emerson, Virgílio e Fernanda.

  6. Fábio Fernandes disse:

    Como sempre lúcido e inquietante.
    O que é dignidade? O que é viver com dignidade? Até que ponto podemos persegui-la? São limitações que se fazem mais imperativas à determinados segmentos sociais.
    Não seríamos nós os “criminosos” sob identicas condições?
    “Indignação… indigna nação.”

  7. Pingback: Todo destino humano é, antes de tudo, humano « Cirandeiras

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s