DE MURROS, FACAS, REGISTROS E CADARÇOS

Por Virgílio de Mattos[1]

Dar murros em ponta de faca, como todo vício, é mania fácil de pegar. Como toda mania você começa cedo, assim como em todo vício, pensando poder controlar o seu próprio ritmo de uso daquela droga. Ou daquela droga de estado, no caso da mania.

IDEAL PARA DAR MURROS

IDEAL PARA DAR MURROS

Observem como exemplo, as mulheres na mania, quando, na patológica, pintam o rosto de forma terrível e tanta que acabam ficando disformes, algumas parecem um quadro de Picasso. Conheço ao ver de longe. Um lombrosiano par de binóculos urbanos. E olha que sem fantasia.

Mas você pode ver sintoma desse vício quando se irrita por perceber que todos acham isso uma coisa natural nesse carnaval que os baianos, como em todo carnaval, trarão um refrão com “iê-ê-ê-ê-ê”, uma paradinha, um “u-u-uh-u-u-uh” e repete ad nauseam até a pessoa se enforcar no registro do chuveiro da cela.

Haverá também indefectível dancinha, passinho requebrante pro lado de cá, pro lado de lá…agora pra frente, isso, você já está pegando o jeito. Balance a cabeça como quem tem uma forte convulsão. Isso. Um misto de possessão demoníaca e o exato instante em que chega o pastor e livra você de todo o mal amém, mediante paga ou promessa de recompensa.

Voltando ao vício na perigosa droga que é dar murros em ponta de faca.

No princípio vão oferecer a você de graça. Não, pode dar o murro que quiser, não tem custo nenhum. Dizem os obscenos traficantes de inconformismo, “e olha que o almoço é grátis, pode se servir”. Aí, quando você for perceber, já está tremendo de vontade de não se deixar levar pelo mar de mediocridade. De querer resistir, de não ir por ali como já advertia o José Régio.

Obviamente que você se esbalda, mas já é crescidinho. Não precisa de mamãe levar pela mão até a escolinha ou ao baile. Você não fez seu caminho até aqui sozinho? Ah, não? “Já que todo mundo tava fazendo daquele jeito e foi passado pra gente na academia que era o certo, eu nem questionei na hora que atirei”.

Isso de resistir à mesmice virou um hábito que você, mesmo se quisesse, teria dificuldade de abandonar. Por que ir no mesmo sentido? Você não acha isso um perigo?

Como acreditar nos desfechos de sempre? Eu digo que é esse o grande perigo. Você sair por aí, “se acabando”, enchendo a cara, fazendo sexo sem saber com quem, quem dirá sexo protegido, não pode me parecer uma boa ideia nesses sombrios tempos que vivemos.

Isso sem contar o fato de poder vir a ser controlado pelas agências de controle.

VÁ COM TUDO, MAS VÁ COM CALMA! Esse pode ser o refrão.


[1] – Do Grupo de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade. Do Fórum Mineiro de Saúde Mental. Autor de Crime e Psiquiatria – Preliminares para a Desconstrução das Medidas de Segurança, A visibilidade do Invisível e De uniforme diferente – o livro das agentes, dentre outros. Advogado criminalista. virgilio@portugalemattos.com.br

 

Esse post foi publicado em Coisas do mundo, Colaborações, Criminologia, Sociedade do Controle. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para DE MURROS, FACAS, REGISTROS E CADARÇOS

  1. Parece que depois de implantando o vício de dar murros em ponta de faca, não adianta mais fingir-se a mesma coisa e se pintar de comum. Porque é bem pior, você já não tem a mesma naturalidade que a mediocridade de outrora permitia. E o tédio pode lhe levar a perder o controle quando menos se espera. Não adianta esse ir com tudo, mas ir com calma. Acho melhor nem ir. Ou ir, mas em mim, em minhas, com os meus, porque assim posso ser louco/esquisito/desconforme, mas estou protegido.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s