Histórias da Jatiboca

Passei a minha infância em uma grande fazenda onde funciona até hoje uma usina de açúcar chamada Jatiboca. A “Usina Jatiboca” fica a 32 km de Ponte Nova, mas pertence ao município de Urucânia. Urucânia é uma cidade feia de menos de 10 mil habitantes. O nome infeliz resulta da combinação desastrada das palavras “urucum” e “cana”, duas plantas abundantes na região. A única coisa que se destaca nesse lugar é um santuário – tão feio quanto a cidade – construído em homenagem a um padre chamado Antônio Ribeiro Pinto. Padre Pinto ficou famoso no Brasil inteiro – depois da Segunda Guerra –, época em que passaram a responsabilizá-lo pela cura das mais diversas doenças.

Canavial

Canavial renascendo depois da queima e corte

Existem muitas histórias sobre o padre. Dizem que sua mãe era alcoólatra e que o filho rezou para que deixasse a bebida, se oferecendo para substituí-la no vício. Deus teria aceitado a proposta, curando a mãe do padre e fazendo-o cachaceiro (Deus costuma ser meio sacana). Enlouquecido pelo álcool, padre Pinto teria entrado a cavalo em uma igreja, assustando a crédula população local.

Após uma fase de extravagâncias, o padre teria passado a fazer milagres (enfrentou o perigo, alcançou a pureza). Ao lado do santuário, há uma sala de ex-votos com centenas de peças de cera que se referem às graças alcançadas pelos fiéis. No santuário existem alguns filtros de barro com água benta. As pessoas bebem dessa água em busca de alívio para os seus problemas. Todos têm que beber no mesmo copo. Essa exigência foi instituída pelo padre Pinto, que determinou que as madames ricas usassem o mesmo copo dos maltrapilhos e desdentados. Afinal de contas, eram os mesmos problemas humanos. Os ricos que buscavam aquele lugar já tinham se deparado com o fato de que o dinheiro pode muito, mas não pode tudo.

ex-votos

Salão de ex-votos da igreja de Aparecida. A de Urucânia é mais simples. Mas os objetos são muito semelhantes

Mas o assunto é a Jatiboca.

O NOME

Dizem que esse nome estranho vem de uma espécie de bambu espinhento comum na região. Não sei se é verdade. Mas na falta de outra explicação, essa fica valendo.

OS NOMES

Como não poderia deixar de ser, existem outros nomes muito curiosos em um lugar que se chama Jatiboca. A começar pelos nomes das vilas. Como a propriedade é muito grande, as áreas habitadas são esparsas. Cada uma dessas áreas tem um nome. Morei na “Rua do Sapo”, que nunca foi uma rua. Depois nos mudamos para a “Vila Rosa”. A pintura externa de todas as casas era rosa. Daí o nome. A “Vila Rosa” se parece mais com uma rua do que a “Rua do Sapo”. Existe também uma vila chamada “Ponte Funda”. A ponte funda é, na verdade, uma espécie de passarela que atravessa um ribeirão. Pescando nesse ribeirão contraí esquistossomose. Jurava de pés juntos para a minha mãe – contra todas as evidências científicas – que nunca havia entrado na água. Cheguei a convencê-la de que existiam outras formas de contágio. O enfermeiro local se solidarizou comigo e contribuiu significativamente para o convencimento da minha mãe.

Existe também a vila de nome “Come e Deita”. Não conheço a origem do nome. Imagino que tem a ver com o hábito de dormir “com as galinhas”, próprio dos moradores da roça. Próximo à “Come e Deita”, fica a vila “Pendura a Saia”. Desconheço nome mais improvável. Não consigo pensar em uma explicação. A única coisa que me ocorre é uma referência inverossímil a algum indefinido costume rural.

Existe também a vila chamada “Seis Alqueires” e a “Buracada”. Há toda uma hierarquia social que organiza essas vilas. Em primeiro lugar fica a “Vila Rosa”, originalmente destinada aos funcionários do escritório da usina. Na “Seis Alqueires” moravam os cortadores de cana. Como a região é muito montanhosa, o corte é quase todo manual. Trabalho pesado. Entre esses extremos ficam as vilas destinadas aos operários da usina.

As casas dos donos ficam espalhadas pela propriedade. Grandes casas de fazenda despontam no meio dos canaviais ou em pontos privilegiados muito bem escolhidos pelos patrões.

NOMES DE PESSOAS

Não poderiam faltar as pessoas com nomes curiosos. O mecânico chamado “Neném Cocão”. A empregada doméstica chamada “Negão” – que se casou com um alemão de olhos azuis e se mudou para a Europa. O motorista de nome “Lasquinha” – um negão enorme que tomava um litro de coca-cola no almoço. Tive um colega de escola que se chamava Valdeci, mas que era conhecido como “Dengo”.

Havia também o “Seu Olívio”. O nome não é incomum, mas a pessoa sim. “Seu Olívio” era fanático pelo time de futebol da usina. Assistia aos jogos percorrendo toda a extensão do campo, agarrado ao alambrado. Acompanhava a bola. Quando vislumbrava o gol, gritava para o artilheiro: “fura o gôlo”, “fura o gôlo”!

VIOLÊNCIA

Não me lembro de qualquer crime que tenha acontecido na Jatiboca. Mas as brincadeiras das crianças eram bastante violentas. Na época da chuva, fazíamos guerra de barro. Formávamos dois grupos cujo objetivo era vencer o inimigo atingindo seus integrantes com bolas de lama. O mesmo acontecia no final da temporada das goiabas. Nessas ocasiões as armas eram as goiabas podres encontradas aos montes no grande goiabal da fazenda. Não há quase nada tão bom quanto ver uma goiaba podre explodir na cabeça do soldado inimigo. A experiência era tão boa que parecia acontecer em câmera lenta.

Houve um período em que praticamos o “surf de barranco”. As máquinas tinham preparado o terreno em que seriam construídas as novas casas da Vila Rosa e deixaram barrancos cortados e lisos prontamente utilizados pelos meninos. Descíamos os barrancos sentados em tábuas que alcançavam uma boa velocidade.

Gostava muito também do “pique de bicicleta”. Todos os meninos andavam em suas bicicletas pela vila e o objetivo era aproximar do adversário e aplicar um chute certeiro em sua garupa de modo que – adversário e bicicleta – encontrassem o chão. O derrubado não culpava o adversário, pois tinha aceitado, desde o início, as regras do jogo.

Praticávamos ainda a corrida de carrinhos de rolimã ladeira abaixo. Como as estradas eram de terra, às vezes o carrinho parava bruscamente em alguma irregularidade do terreno. O piloto deslizava para a frente, chegando à terra. Esses acidentes costumavam causar um ralamento de bunda extremamente dolorido. Mas doía mesmo na hora de passar o Mertiolate. O Mercúrio Cromo não era bem visto, pois denunciava, por não arder, a covardia do ferido.

Jogávamos bola em um campo forrado com bagaço de cana (funciona muito bem durante a maior parte do tempo). A principal regra era a de que todos deviam jogar descalços. De vez em quando alguém chutava o chão e voltava pra casa sem a tampa do dedão. Esse tipo de ferimento fazia com que o jogador ficasse de fora das partidas durante algum tempo.

O times eram organizados por dois integrantes, um pouco mais velhos, que tiravam “par-ou-ímpar” e escolhiam alternadamente os jogadores. Dos melhores para os piores, sempre. Por último ficavam aqueles dos quais se dizia que “a natureza marca”. Como não faziam diferença, eram distribuídos pelos dois times de qualquer maneira. Muitas vezes o time que tinha ficado com o melhor era obrigado a levar dois piores.

À NOITE

A noite começava cedo. Depois do banho costumávamos voltar para a “rua” e então fazíamos uma fogueira e conversávamos sobre coisa nenhuma ou sobre todas as coisas importantes que tínhamos feito durante o dia. Ninguém dormia. Todo mundo desmaiava lá pelas dez. E no outro dia começava tudo de novo.

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5 respostas para Histórias da Jatiboca

  1. Mônica disse:

    Eu acho lindo esse texto de histórias que você já tinha me contado. Se tem uma coisa que não se pode dizer é que você não teve infância. Lembrei da minha, meio neurotiquinha, mas que teve um certo encanto. Quando morei no Espírito Santo (meu pai trabalhava na Aracruz Celulose), havia um motorista cujo apelido era Risadinha. Era risonho, claro. Nunca soube como se chamava. Ele não conseguia falar Fiat como a gente pronuncia. Era criativo na pronúncia.

    Gostei de ler as histórias que você já me contou, e gosto de ter visitado com você os lugares onde tudo aconteceu.

  2. Adriana Barros disse:

    Deu uma saudade enorme da minha infância.
    A única coisa que era ruim era o momento da escolha de quem ia ficar no time de quem (queimada, “paris” bola, acho que hoje nem jogam isso mais), eu sempre sobrava mais que jiló na janta, acho que eu era a maior pereba….rs

  3. Virgílio disse:

    Excelente texto, como sempre.
    Nesse dá pra se perceber o grande sociólogo e professor já no menino que engaloba a mãe com o contágio da “xistoza” (estou convencido que a pronúncia corrente deveria ser essa).
    Os prazeres simples, como todo prazer – por mais sofisticado que seja ou aparente ser – que se preza, a gente percebe melhor com o distanciamento, quando nada, do tempo.
    Infância: lógico que a gente era feliz E SABIA!
    Completamente diferente desses “meninos de granja”, como denomino os meninos de apartamento que não têm sequer uma miserável cicatriz nos joelhos…

  4. Wanderlei Silva disse:

    É Guto!!! São muitas lembranças hein. Mas acho que está faltando algo na sua história nobre vizinho da Catarina de José Bonfioli. Você conhece Paulo Magalhães?
    Faltam relatos sobre a entrega de leite do seu Agenor, as filas por 1 ou 2 litros de leite. Os menos afortunados aguardavam o leite gratuito desnatado numa máquina barulhenta.

    – Do boteco do Nô, único lugar onde era possível encontrar guloseimas da cidade.
    – Faltou falar do campo de futebol construídos em padrões muitos superiores aos daquela sociedades, graças à paixão que os Martins (donos da usina) tinham por futebol, campo que sempre era mantido impecável graças ao trabalho apaixonado do zelador Vivi.

    – Dos campeonatos intra-vila, nos surrados campinhos de terra-batida, a exceção campinho da Vila das Flores que era cuidadosamente mantido pelo Sr. Custódio Ferreira, operador do único trator de esteira da região.

    – Da capela que ficava bem acima da sua casa, onde ocorreram muitos casamentos, batizados, primeira-comunhão, dos trabalhos do saudoso Padre Jaime.

    – Do farto pomar da escola da vila come-e-deita e de sua horta que era mantida pelos alunos da 3ª e 4ª série, trabalho maravilhoso coordenado pela diretora, Dona Dora.

    – Do eterno balanceiro Ivo e as filas intermináveis de caminhões de cana aguardando o descarregamento e de seus motoristas que eram salvos do calor escaldente pelos vendedores ambulantes de chup-chup.

    – Permita-me discordar, mas Urucânia é uma cidade linda, seu santuário, construído graças ao suor dos fiéis, também muito bonito. E a Jatiboca, quantos pomares, matas nativas, os córregos, pássaros…

  5. MARLON CESAR DA SILVA disse:

    OLHA ,GUTO
    ME DEU UMA SAUDADE DANADA ,NASCI ALI NAQUELA USINA PASSEI METADE DA MINHA VIDA ALI,INCLUSIVE FUI COLEGA DE ESCOLA DE SEU IRMÃO LUIZ OTÁVIO ,LEMBRO DO SEU PAI NO CORCEL MARROM….MEU PAI ERA AÇOUGUEIRO CONHECIDO COMO JOÃO GALO,MAIS TARDE TRABALHEI COM SEU PAI NA JAPIELNA ,TUDO ISSO TRAS MUITA SAUDADES

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