A sangue frio (há 45 anos)

Para quem se interessa pelo tema da violência, o clássico “A sangue frio” é leitura obrigatória. O jornalista Truman Capote conta a história do assassinato de quatro membros da família Clutter. O casal Herbert e Bonnie e seus filhos adolescentes Nancy e Kenyon. Os Clutter tinham ainda mais duas filhas, que escaparam porque não moravam com os pais.

Perry Smith e Richard Hickock

Perry Smith e Richard Hickock

Herb Clutter era um bem sucedido fazendeiro do Kansas. Tinha 48 anos. Religioso, participava intensamente das atividades da Igreja Metodista local. Bonnie, sua esposa, enfrentava dificuldades causadas pela depressão. Aos 45 anos, tinha pouco da jovem cheia de vida que encantou Herbert.

Nancy, a filha de 16 anos, era uma garota exemplar. Tirava as melhores notas na escola e tinha uma grande disposição para ajudar os amigos. Era muito querida por todos que a conheciam. Kenyon, de 15 anos, era o único filho homem. Mais introspectivo, não tinha uma vida social como a de sua irmã. Mas era querido, como todos da família Clutter.

Na madrugada de 14 para 15 de novembro de 1959, Perry Smith e Dick Hickcock chegaram à casa dos Clutter. Tinham o objetivo de roubar o cofre. Imaginavam encontrar pelo menos 10 mil dólares. O suficiente para começarem uma vida nova no México. Dick planejou tudo, ajudado pelas informações de um colega de prisão que havia trabalhado para Herb Clutter.

Herbert Clutter

Herbert Clutter

Acordaram o dono da casa, que dormia em um quarto no primeiro andar. Foram com ele para o escritório. Queriam que abrisse o cofre. Mas não havia cofre. Herb era famoso na cidade por não gostar de manusear dinheiro. Pagava as menores contas em cheque. Certos de que encontrariam dinheiro na casa de um fazendeiro rico, amarraram todos os membros da família e reviraram tudo em busca dos dólares imaginários. Não encontraram mais do que 50 dólares.

Bonnie Clutter

Bonnie Clutter

Antes de irem embora, mataram cada um dos Clutter com tiros de espingarda calibre 12. Alegaram que não queriam testemunhas. No entanto, para não deixarem testemunhas, poderiam ter optado por uma solução menos drástica, como o uso de máscaras, por exemplo. Aparentemente, foram tomados por algum tipo de “fúria” que os conduziu durante os assassinatos. Antes de inciarem a matança, Dick queria estuprar Nacy, mas Perry o impediu. Quando amarraram Kenyon tiveram o cuidado de colocar um travesseiro para que ele se sentisse mais confortável. Atitudes que não combinam com a disposição para o assassinato que surgiu mais tarde.

Fugiram por algum tempo, dirigindo carros roubados pelos Estados Unidos. Chegaram a passar alguns dias no México. Foram presos no dia 30 de dezembro de 1960. Interrogados, acabaram confessando os crimes. Após 5 anos de espera no corredor da morte, foram enforcados “a sangue frio” no dia 14 de abril de 1965.

Casa da família Clutter

Casa da família Clutter

Truman Capote soube dos assassinatos lendo uma pequena notícia publicada nas páginas internas do New York Times. Decidiu investigar o ocorrido. Foi para Holcomb-Kansas, cidade onde ficava a fazenda River Valley, de Herb Clutter. Seis anos depois a The New Yorker publicava a história em 4 partes. Em janeiro de 1966 – há 45 anos, portanto – seria publicado – pela Random House –  o livro “In cold Blood”. Capote se autoproclamou inventor do gênero “romance de não-ficção”.

Nancy Clutter

Nancy Clutter

O livro provocou muitas discussões sobre jornalismo, ética e objetividade. Capote não usou gravadores e não tomou notas durante as conversas que manteve com os envolvidos. Dizia ter treinado a sua memória para lembrar do que foi falado. Alguns o acusaram de não ter sido fiel aos fatos. Especialmente na construção dos perfis psicológicos dos assassinos. Também o acusaram de ter usado Perry e Dick para fazer literatura, deixando de ajudá-los quando teve oportunidade. Disseram, ainda, que houve um envolvimento profundo entre Capote e Perry, e que isso teria contaminado a narrativa.

Kenyon Clutter

Kenyon Clutter

Enfim, polêmicas inúteis. Os dois criminosos eram réus confessos, foram julgados e condenados pela justiça. Receberam uma pena prevista pela legislação do Kansas. O governador do estado se recusou a conceder clemência. De que forma Capote poderia ter ajudado? Quanto à objetividade, é ingenuidade buscá-la como se fosse algo palpável. Não existe objetividade absoluta. Existem relatos e cada um deles parte de alguns pressupostos interpretativos. Capote escolheu os seus. Em relação ao envolvimento, é óbvio que qualquer “repórter” conta o seu envolvimento com os fatos, seja qual for o envolvimento. A pretensa neutralidade não passa de um tipo específico de envolvimento.

O que importa é que a pesquisa é muito bem feita e o livro é muito bem escrito. Os personagens são psicologicamente verossímeis e interessantes. O panorama da vida interiorana nos Estados Unidos do final dos anos 1950 é bem construído. A crueza do “assassinato sem sentido” é mostrada de forma viva. Como disse um dos moradores de Holcomb, a morte dos Clutter “foi tão sem sentido como se tivessem sido atingidos por um raio”. O mais intrigante nessa história é que o raio era humano.

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PS. A história foi publicada em quatro partes na The New Yorker a partir de setembro de 1965. O livro saiu em janeiro de 1966, embora a data do copyright seja 1965.

PS2. O filme Capote (2005) conta a história da produção do livro e do envolvimento do autor como Perry Smith.

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5 respostas para A sangue frio (há 45 anos)

  1. O filme é muito bonito. Ainda não li o livro, mas ele vai entrar na fila com certeza.

  2. Virgílio disse:

    Depois tenta dar espaço pro RODOLFO WALSH, Carlos. Herói da humanidade.
    Foi ele quem “inventou” o estilo usado por Capote em seu – dele, Walsh – insuperável
    OPERACIÓN MASACRE (disponível para baixar, olhe no http://www.elortiba.org)

    Rodolfo era pai de Vicky, que morreu rindo. Atirando e rindo.

    Querendo, confira ainda o CARTAS PARA A POSTERIDADE, http://www.domhelder.edu.br/revista/index.php/veredas/article/view/42

    As cartas estão neste endereço abaixo
    http://www.domhelder.edu.br/revista/index.php/veredas/article/view/43/30

    Só pra gente não passar o recibo (falso) de que foi o Capote quem “inventou” o jornalismo investigativo.

    Concordo com o Caceres que o filme é interessante. O livro do Capote já não me impactou tanto.

  3. Excelente artigo Carlos! Motivou-me também a ver o filme.

  4. Rúbia Evangelista disse:

    Vi ao filme e li o livro. Nessa ordem. O filme esclarece coisas do livro, ou seja, na minha opinião complementa. Mas ler é imprescindível, a narrativa do Capote é inebriante. Parece que você vê os fatos narrados ao alcance de sua mão. Uma coisa que senti, não sei se todos assim sentiram, foi que a narrativa se torna mais apressada e o final do livro não segue o mesmo ritmo que o princípio e meio. Mas o filme mostra a pressão que Capote sofria por parte da editora. Imaginem como seria se isso não houvesse ocorrido? Como dizia Caetano, antes de se envolver com o pessoal do Psirico (será que escreve assim?) “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”.

    Abraços Carlos, adorei o post

    • Carlos Magalhaes disse:

      Pois é, Rúbia. Naquela época, apesar das pressões, a tolerância com os prazos e a aposta na produção de grandes obras era muito maior. Difícil imaginar alguém hoje pesquisando por anos a fio sobre um assassinato em uma cidade obscura do interior. A caixa registradora tem de registrar o tempo todo. Muita quantidade e pouca qualidade…

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