Vai ler McLuhan que dá é nisso!

Já mencionei num post anterior a conferência “O fim da ética do trabalho” (1972), de Marshall McLuhan. Faz parte do livro “Compreender-me – Conferências e Entrevistas”, editado pela Relógio D’água. É um daqueles textos em que o autor atira diversas flechas ao mesmo tempo e o leitor se diverte tentando pegá-las no ar. Ou pelo menos tocá-las de raspão para que mudem de direção. É o que tento fazer, sem maiores compromissos, nestas linhas. Sinta-se à vontade para entrar na conversa. Nada aqui é conclusivo.

Segue a transcrição de alguns trechos (são muitos, mas interessantes):

“’O fim da ética do trabalho’ está muito directamente relacionado com o facto que, na situação elétrica do novo ambiente da informação, já não é possível ter apenas um objectivo. Quando tudo acontece ao mesmo tempo, quando se é inundado, em simultâneo e todos os dias, de informação vindas de todos os quadrantes do globo não se pode estabelecer um objectivo distante e dizer, ‘Vou dirigir-me a este ponto’. Esse ponto está em rápido movimento, tal como aquele que profere a frase e antes de dar um passo nessa direcção, tudo terá mudado”.

“A ética do trabalho, na medida em que significava uma orientação para um objectivo individual, não é eficaz e já desapareceu há algum tempo. […] O posto de trabalho está a ser substituído pelo desempenho de papéis”.

“Com o advento do ambiente mundial da informação simultânea e instantânea, o homem ocidental passou do espaço visual para o espaço acústico, espaço esse que é uma esfera cujo centro está em toda a parte e os limites em parte alguma. Assim é o espaço criado pela informação elétrica e que chega simultaneamente de todas as partes do globo. É um espaço que se afasta progressivamente do mundo da continuidade lógica e da estabilidade concatenada para entrar no mundo do espaço-tempo da nova física, em que o elo mecânico reside no intervalo ressoante do contato, em que não há conexões, mas apenas interfaces”.

“[…] Todos nós vivemos nesse novo mundo ressoante e simultâneo, em que as relações entre figura e fundo, público e intérprete, procura de objectivos e desempenho de papéis, centralização e descentralização, se alteram e invertem vezes sem conta. O homem civilizado, o homem euclidiano, cujas faculdades foram aguçadas e especializadas pela literacia greco-romana, esse empreendedor agressivo, orientado por objectivos e seguindo uma só direcção foi simplesmente desalojado e desacreditado pelo novo ambiente fabricado pelo homem da informação eléctrica simultânea”.

“Viver electronicamente, em que os efeitos surgem antes das causas, é uma maneira esquemática e esclarecedora de explicar porque as finalidades e objectivos distantes têm tão pouco sentido para o homem ‘neurónico’. Dito de outro modo, o homem electrónico trabalha em um mundo em que os serviços eléctricos constituem uma extensão, sob forma ambiental, do seu próprio sistema nervoso. Para esse homem não tem sentido dizer que irá dedicar-se ou prosseguir finalidades ou objectivos distantes, uma vez que todas as satisfações e objectivos já se encontram presentes”.

Mas não seria essa a exceção? “O homem civilizado, o homem euclidiano, cujas faculdades foram aguçadas e especializadas pela literacia greco-romana”. E não estaria essa exceção, existente há relativamente pouco tempo e muito concentrada em alguns nichos específicos, ainda mais concentrada agora em não muitos centros de produção de bens materiais e imateriais?

Vai ler McLuhan que dá é nisso!

Vai ler McLuhan que dá é nisso!

Os humanos nasceram e aprenderam a viver no mundo dos sons que vem de todos os lados direcionando a atenção e o olhar de um ponto a outro, mundo da oralidade, dos cheiros, da visão periférica imprecisa, mundo essencialmente acústico.

O foco visual é obviamente útil. Mas, a princípio, é dependente da informação acústica. Já tentou achar um pássaro verde no meio de uma árvore? É preciso deixar os olhos meio soltos nas órbitas. Não tem manual de instruções. É meio como pegar o movimento desprevenido. Um barulhinho ajuda muito.

A observação atenta é, evidentemente, uma importante capacidade humana. Mas, talvez, a observação que encontra interfaces – onde há apenas “o intervalo ressoante do contato” – seja mais adequada em certas situações do que a observação que procura por conexões. A construção intelectual de conexões não levaria a um grau de abstração desnecessário – e até inconveniente – em situações que não envolvem a necessidade de produtividade intensificada?

O foco visual fixo e excludente, particularmente o foco intelectual que envolve exame cuidadoso e concentrado de informações escritas, não é algo indispensável à vida humana. É indispensável a certos modos de vida. Por exemplo, o (mal chamado de) ocidental, greco-romano, etc. Especialmente indispensável, de fato, ao modo de vida iniciado com a modernidade européia capitalista.

Esse foco é necessário ao estabelecimento de objetivos de longo prazo e ao controle burocrático que garante a consecução das metas. A partir daqui Max Weber, que tratou do processo de racionalização da sociedade moderna (Europa Ocidental e Estados Unidos, por extensão), pode entrar na conversa. O protestantismo teria inaugurado a ética do trabalho disciplinado e metódico no mundo. Empreendimento de que os católicos não gostavam muito, pois tinham coisas mais divertidas pra fazer e contavam sempre com perdão salvador na hora final.

Não sei o que McLuhan acharia de colocar Weber nessa bagunça, mas ele já morreu e, como não devia saber português, nem do além vai ler esse post. Vamos ficar sem saber. De qualquer forma, acho que Weber (e não só ele) atrapalha o esquema de McLuhan. Se a ética do trabalho começou com uma turma de calvinistas malucos, ela logo ganhou o mundo, deixou de ser produto de decisões éticas individuais e passou a ser sistêmica.

No final das contas, não há necessidade de uma motivação ética individual do trabalho para o sujeito comum. Ele pode viver alienado da silva, e se assim for tanto melhor, que o sistema capitalista se incumbe de colocá-lo em movimento de acordo com as exigências da produção.

Daí que a relação entre o novo ambiente da informação eletrônica e o fim da ética do trabalho me parece equivocada. “A ética do trabalho, na medida em que significava uma orientação para um objectivo individual” já não tinha importância há muito tempo. Não foi a simultaneidade da informação que a destituiu de seu posto. É o fato anterior de que os objetivos incrustados no sistema capitalista ultrapassam e subordinam as decisões individuais.  As pessoas podem fazer o que quiserem desde que trabalhem e comprem. Trabalho já não há tanto. O importante mesmo é que comprem. Caso não queiram ou não possam, que liberem o caminho para os podem e querem. Afinal, são muitos. Os produtos não são tão sedutores?

(Uma evidência de que as satisfações e objetivos não precisam ser buscados pelos indivíduos, pois já se encontram presentes, pode ser inferido de um comentário de McLuhan – numa entrevista que faz parte do livro – em que ele nota que as pessoas costumam ler os anúncios publicitários DEPOIS de terem comprado o produto, pra confirmar se fizeram uma boa escolha. E que ficam felizes por confirmar o acerto, POR MEIO DO ANÚNCIO!)

De mais a mais, objetivos individuais não são eficazes desde que tudo que era sólido passou a desmanchar no ar. A feitiçaria capitalista criou essa situação muito antes da revolução digital.

Não acredito que “o advento do ambiente mundial da informação simultânea e instantânea, tenha levado o homem ocidental do espaço visual para o espaço acústico”. Penso que o desenvolvimento do ambiente de informação simultânea e instantânea, que tem a ver com a transformação da informação em mercadoria, aumentou enormemente o espaço acústico, dentro do qual sempre vivemos.

Claro que saímos com alguma freqüência do espaço acústico para o visual, uns mais outros muito menos e não sem algum esforço, maior agora – na era da informação simultânea – para aqueles que não estão enclausurados em um mosteiro zen no meio do deserto.

Esse ambiente acústico aumentado, e aqui estou com o McLuhan, faz com que o homem eletrônico passe a viver em um mundo em que as informações simultâneas e instantâneas transformem-se numa extensão externalizada do seu próprio sistema nervoso. “Para esse homem não tem sentido dizer que irá dedicar-se ou prosseguir finalidades ou objectivos distantes, uma vez que todas as satisfações e objectivos já se encontram presentes” e pairam em volta e entram e saem e caem sobre a sua cabeça.

Ainda querem que a gente durma! Só se for na frente da televisão ou em cima do teclado.

Esse post foi publicado em Coisas do mundo, Mídia, Sociologia de Boteco. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Vai ler McLuhan que dá é nisso!

  1. Virgílio disse:

    you have a message!
    Era assim, com direito a voz cavernosa e tudo, que eu soube que o meio era a mensagem.
    Dá medo, num dá não?
    A Karl Popper e Max Weber, sigo preferindo Karl Marx.
    Na hora arisca do risco ajuda.
    A sociedade do perigo, noção romana, morre com o crack de Nova Iorque.
    Da ética protestante Frau Merckel não ficou livre.
    A nós, não nórdicos, sobrou o neopentecostalismo.
    E ainda querem que a gente durma com uma mensagem dessas?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s