COMO PODE QUERER DAR LIÇÃO DE MORAL?

Por Virgílio de Mattos[1]

Na literatura infantil, em especial a de meados do século passado, havia sempre ao final alguém dando uma lição de moral, que quase sempre era confundida com a “moral da história”.

Nem o Diabo crê nas lições dessa baranga

Nem o Diabo crê nas lições dessa baranga

Na atualidade fico pensando em algumas estórias mal contadas por maus contadores de estórias, que acabam passando para a história as estórias que contam como verdades.

Reflito sobre a pobre Mrs. Clinton, como pode querer dar lição de moral se não a tem?

Como pode querer ditar normas de conduta para os países dos outros, se na sua própria casa e em seu próprio quintal vulgarizada é a barbárie contra os pobres de todo o gênero? Seus marines estão pelo mundo todo a pretender também dar lições de moral seja em Kandahar, seja nas selvas da Colômbia, devastando tudo que seja interposto pelo caminho.

A intervenção estadunidense na Líbia, como todas as outras intervenções armadas, é patética. Pouco adianta tentar passar a imagem de que a OTAN é quem cuida de tudo e os EUA mantém “distanciamento do conflito”. Que conflito? O que eles próprios criaram?

A senhora Clinton aparece na TV dizendo que o povo líbio, que permanece em sua maioria pró-Kadafi[2], estaria levando mortos para os locais de bombardeio. Seriam mortos “falsos”. Levariam falsos mortos, Mrs. Clinton, ou um morto é um morto e nada há de mais verdadeiro do que isso?

Se fosse verdade, e não é, que o objetivo da OTAN é “a proteção dos civis nas zonas habitadas”, bastaria que não fossem bombardeadas, isso não parece simples?

Se a OTAN “está cumprindo apenas a resolução da ONU” porque não se demonstra o mesmo empenho a coibir as práticas nefandas do estado terrorista de Israel, igualmente multicondenado por resoluções da mesmíssima ONU?

Os “efeitos imediatos”, os colateral dammages, para utilizarmos a infeliz expressão de Jamie Shea – quando era o porta-voz da OTAN e saiu-se com essa no desmantelamento da Yugoslávia –  dizia que os mortos civis eram apenas “danos colaterais”. Na Líbia, como na então Yugoslávia, os “danos colaterais”, tanto os “verdadeiros”, quanto os “falsos” como quer Mrs. Clinton, estão por toda parte.

Como pretender passar ao mundo que os mortos são falsos, Mrs. Clinton?

Você pode crer nas maiores bobagens, basta querer, exceto que a OTAN “permanecerá imparcial”. Fico preocupado com os pacóvios crédulos. Bombardeará militares, população civil e os combatentes de ambos os lados nessa estúpida – como toda guerra – guerra civil?

Obviamente que não pretendo fazer aqui a defesa apaixonada de Kadafi, mas muito menos reeditar algum tipo de razão a essa coalizão colonialista e imperialista (Kadafi aqui tem razão ao nominar assim os ataques franco-ingleses) que a serviço da Raytheon e McDouglas, fazem dos céus líbios uma constelação de destruidores mísseis Tomahawk, cada um saindo pela “bagatela” de pouco menos de um milhão de dólares estadunidenses.

Não podemos esquecer que sob a “democracia[3]” Reagan (não me recordo mais se no primeiro ou segundo reinado “democrático”) Trípoli foi bombardeada e a filha de Kadafi morta.

A grande tragédia líbia é ter petróleo em seu território. Muito sangue correrá por ele. Haveria necessidade disso?

Sobre a definição de NECESSIDADE, empresto a contida no Livro Verde, de Muammar El-Kadafi:[4]

A liberdade do homem sempre será incompleta enquanto suas necessidades estejam subordinadas a terceiros. A necessidade pode conduzir à escravidão do homem pelo homem. Assim, a exploração é resultado da necessidade, que constitui um verdadeiro problema. Com isto, a luta surge da dominação das necessidades do homem”.

Bom para refletir sobre a “moral da história” nesse momento em que os sem moral alguma e sem história pretendem dar lições.


[1] – Do Grupo de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade. Do Fórum Mineiro de Saúde Mental. Autor de Crime e Psiquiatria – Preliminares para a Desconstrução das Medidas de Segurança, A visibilidade do Invisível e De uniforme diferente – o livro das agentes, dentre outros. Advogado criminalista. virgilio@portugalemattos.com.br

[2] – Quanta diferença entre a cobertura midiática da CNN e da Al-Jazira.

[3] – De democracia os Estados Unidos entendem… Vide as fraudes havidas na eleição do “segundo reinado” de Bush Júnior, na Flórida.

[4] – Alfath, setembro de 1991, Centro Internacional De Estudios e Investigaciones sobre El Libro Verde, p. 61, tradução livre

Esse post foi publicado em Colaborações, Mídia, Sociedade do Controle, Violência. Bookmark o link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s