DESARQUIVANDO O BRASIL

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Textos de Virgílio de Mattos e Carlos Magalhães

!ASESINOS! !HIJOS DE PUTA!

Por Virgílio de Mattos[1]

Mortos da Ditadura

Esses não foram anistiados (clique para ampliar)

[O documento com as fotos dos mortos massacrados pela ditadura militar faz parte originalmente do panfleto da Manifestação Pública –Tributo aos mortos e desaparecidos do Brasil e da América Latina – por ocasião dos 30 anos da luta pela anistia no Brasil, realizada em 29/08/2009]

Eu pensei que fosse um sonho quando vi a mãe da Plaza de Mayo, na inauguração do Espacio para Memoria y para la promoción de los Derechos Humanos, em plena Escuela de Mecanica de la Armada, em Buenos Aires, o mais lúgubre centro clandestino de prisão e tortura na América Latina, gritando a frase que dá título a este texto.

Pensei um sonho impossível e, de cara, lembrei do velho Lênin, tão sábio e que sequer sabia dar um bom nó na própria gravata, dizendo pra gente acreditar nos sonhos desde que tivéssemos o compromisso de transformá-los em realidade.

Na Argentina, no Chile, no Uruguay, no Paraguay o povo pôde retornar à vida com a responsabilização, julgamento e punição dos torturadores das mais bárbaras ditaduras do cone sul durante a guerra fria. No Paraguay até mesmo os “archivos del terror” foram abertos e aqui nada. Absolutamente nada, exceto a canalhice do Supremo ao fazer a interpretação da lei de anistia.

No Brasil não. Ainda temos engasgado esse enguiço.

Óbvio que o grito, a representar o desabafo de todos nós, não traz os detenidos desaparecidos de volta. Óbvio que não traz sequer os restos mortais deles de volta, embora se con vida los llevaron, con vida los queremos! Esse sonho eu nunca pensei que pudesse realizar, mas o grito de ASESINOS! HIJOS DE PUTA!, dito com a justa ira e a plenos pulmões fez-me pensar em Walsh[2] gritando isso ali e que toda vez que se ouvisse aquela frase os mortos voltassem todos, todos, todos e pudessem dizer no presente: VENCEMOS! Não nos mataram, fomos nós que escolhemos morrer, como disse Vicki, filha de Walsh, antes de sua heróica morte. Morta sobretudo para que nós, os sobreviventes, seguíssemos na luta. Todos eles morreram por nós, sobreviventes e os viventes desses atuais tempos tão sombrios. Temos que merecer isso. Temos que merecer contar a história.

Mas cada qual com seus problemas, cada qual com seus medos, cada qual com suas culpas e nervos nervosos triscando até o fim do fim, enfim posso também eu dizer: COVARDES, FILHOS DA PUTA! Fomos nós que os tocamos, enxotados, de volta aos quartéis de onde nunca deveriam ter saído. E que aquele 1º de abril de 1964 só foi triste porque era verdade que o fascismo se abateria sobre o país por mais de 20 anos. Pra mim a ditadura civil-militar só termina em 5 de outubro de 1988, mas isso é outro assunto.

Daquele 1º de abril de 1964 lembro do moleque assustado que passa correndo na lembrança. Ele irá se encontrar com o garoto ainda de 1968, com medo, mas querendo ir, que explodirá nas manifestações de 1978, já indo, mas a ditadura nos seus estertores, pouco adiantando ir ou ficar.

O moleque assustado se lembra da classe mérdia –  isso mesmo, de merda – carioca colocando lençóis brancos nas janelas para comemorar o golpe, na zona sul; de tropas, tiros e mortos nas ruas do centro, perto da Praça XV. Minha mãe tentando me acalmar: “não fica assustado, não. Isso vai passar, fica tranquilo que isso vai passar”.

Lembro das vacas velhas reprimidas que nunca tiveram um orgasmo na vida, que o mais próximo que chegaram dele foi em alguma matéria da Seleções, marchando com deus pela democracia. Eram umas mulheres horrorosas, com bigodes… Financiadas por aquele padre estadunidense escroto, pago pela CIA, que agora não lembro mais o nome.

Lembro de Zé Ketti depois pirraçando: “marchou com deus pela democracia, agora chia, agora chia”…

Mas aqui entre nós, dos militares e policiais assassinos,  torturadores, monstros daquele tempo ninguém foi processado, julgado e condenado pelos bárbaros crimes cometidos. Crimes de lesa-humanidade, imprescritíveis e insuscetíveis de anistia, graça ou indulto.

Os vencedores concederam anistia a eles mesmos. Tem coisa que só acontece no Brasil, e nossos mortos, aqueles que com seus corpos e suas mortes garantiram que pudéssemos escrever isso hoje para você saber: fomos quase todos trucidados, moídos e porque nos mataram tão mal, como diz a canção, que seguimos por aí ressuscitando.

Nesse 1º de abril, quando se repudia o golpe civil-militar de 1964, é verdade que precisamos estar mais atentos e fortes do que nunca. O fascismo anda por toda parte. O controle total espreita nas esquinas esses nossos mirrados meninos, essas nossas raquíticas meninas. É verdade, derrotamos um inimigo impiedoso, canalha e cruel como foi a ditadura do general, mas quando conseguiremos derrotar a ditadura do capital?

OUSAR LUTAR! OUSAR VENCER! Era basicamente o que eu queria dizer pra vocês.

Leia também o texto de Virgílio de Mattos para os 40 anos da ditadura

Ouça Silvio Rodríguez cantando Madre:

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[1] – Do Grupo de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade. Do Fórum Mineiro de Saúde Mental. Autor de Crime e Psiquiatria – Preliminares para a Desconstrução das Medidas de Segurança, A visibilidade do Invisível e De uniforme diferente – o livro das agentes, dentre outros. Advogado criminalista. virgilio@portugalemattos.com.br

[2] – Cujo corpo metralhado foi levado para aquele macabro lugar e mostrado a alguns presos.

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Raízes não dão sombra, mas dão sentido à vida

Por Carlos Magalhães

O Golpe de 1964 aconteceu de fato no dia primeiro de abril, mas os militares não gostaram da significativa coincidência com o Dia da Mentira. Decretaram então que o Dia D (de Desastre, de Tortura e de Assassinato) seria o 31 de março, quando Mourão Filho – a Vaca Fardada – começou a mobilizar as suas tropas em Juiz de Fora – MG.

Ernesto Geisel

Essa figura me vigiava na sala de aula em 1977

Quando nasci, o Golpe já havia completado seis anos. Minha primeira lembrança relacionada ao Regime Militar é a foto oficial do Presidente Geisel, que ficava pendurada na sala de aula em que fazia a primeira série do primeiro grau. Éramos todos vigiados pela foto oficial do Geisel (que uma jovem aluna do século XXI  chamou de Jêisel). Para mim, com meus seis/sete anos de idade – no conservador interior do interior de Minas, onde não havia nem mesmo a oposição consentida (a Arena 1  costumava disputar com a Arena 2) -, aquela figura ser o presidente do Brasil era algo natural e certo. Não sabia que fazia parte de uma linhagem de militares golpistas, torturadores e assassinos. Aquele presidente fazia tanto sentido quanto hastear a Bandeira e cantar o Hino Nacional (do LP de hinos que trazia a Independência do Pedro Américo na capa) às quintas-feiras.  Depois disso, me lembro vagamente da nomeação do General Figueiredo. Percebi pela primeira vez que os presidentes da República eram todos generais. Aos nove anos de idade, esse fato também me pareceu natural e certo.

Não sei quando exatamente comecei a entender que o Regime era ditatorial, ilegítimo, torturador e assassino. Mas na campanha das Diretas, em 1984, já tinha consciência dos fatos e acompanhei os acontecimentos com grande interesse. Vivi a primeira decepção política: a derrota da Emenda Dante de Oliveira, no dia 25 de abril de 1984.  Continuei acompanhando o noticiário político com interesse crescente. Passei a entender o significado terrível da foto carrancuda do Geisel na minha sala de aula. Pude localizar as minhas lembranças de infância no quadro mais abrangente da história (ainda que a história não fosse, como ainda não é, contada por inteiro).

O exercício da “imaginação sociológica” (Wright Mills) nos permite identificar as conexões entre a nossa biografia pessoal e o contexto sócio-histórico que a envolve.  Há pouco tempo, me surpreendi com jovens alunos que não sabiam o que era a campanha das “Diretas-Já”. Alguns disseram nunca ter ouvido falar do assunto. Se de fato não ouviram ou se não registraram, não sei. Talvez a informação não lhes tenha parecido importante. Às vezes preciso me esforçar para não esquecer que tenho alunos que nasceram em 1994, quando eu estava votando em Lula pela segunda vez.  De qualquer forma, o ano de nascimento não explica ou, muito menos, justifica o desinteresse pela história e pela memória. Talvez a explicação tenha a ver com diluição do passado num mundo com déficit de atenção, onde as informações têm que ser transmitidas em clipes de 30 segundos. É difícil provocar interesse pela história quando interessante é sinônimo de acelerado.

Mais difícil é provocar interesse pela história não contada ou pela história que tem partes muito importantes escondidas sob uma ignóbil anistia que protege torturadores e assassinos.

Nas últimas eleições, o descaso em relação à história, à memória, à verdade do que aconteceu durante o Regime Militar permitiu que a hoje presidenta Dilma fosse apresentada como criminosa, assaltante, terrorista. Recebi de vários jovens alunos crédulos a ficha falsa publicada pela Falha de S. Paulo.

Enquanto a história dos chamados anos de chumbo não for reconstituída e contada por inteiro, enquanto os arquivos não forem abertos, enquanto os nomes dos torturadores e assassinos não forem conhecidos, estaremos sujeitos a atentados desse tipo contra a luta daqueles que lutaram pelo fim da ditadura, contra a memória, a verdade e a justiça.

Mais ainda, continuaremos negando o direito elementar de saber o que de fato aconteceu aos familiares dos assassinados e desaparecidos. Continuaremos caminhando na direção da diluição do passado e do reforço da farsa de que houve reconciliação e perdão.

Precisamos dar condições aos mais jovens para que conheçam o passado e se REconheçam no presente. Para que saibam da luta e daqueles que lutaram por um país melhor e compreendam assim que o futuro (desde que tenhamos a coragem e a insistência de imaginá-lo diferente mesmo quando nos dizem que isso é perda de tempo) pode trazer muito mais do que as pequenas satisfações do consumo e da aprovação em um concurso público.

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2 respostas para DESARQUIVANDO O BRASIL

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