Os olhos vêem, o cérebro passa a limpo, e usa formulários


Rinocerontes

Das imagens de rinoceronte que podemos ver acima, a primeira é uma xilogravura feita por Albrecht Dürer (1471-1528) em 1515. A segunda é uma gravura que aparece em um livro orgulhosamente “científico” de história natural do século XVIII. A terceira é uma fotografia contemporânea. A xilogravura de Dürer é um marco da iconografia científica. Os europeus nunca tinham visto um rinoceronte. Em 1515, o rei português quis presentear o papa com um elefante e um rinoceronte conseguidos na Índia. Na viagem de Portugal para a Itália, o navio afundou e os animais desapareceram no mar. Mesmo sem os terem visto, os europeus falaram muito dos animais.

Dürer aproveitou um desenho feito pelos portugueses, colocou sua imaginação para funcionar, e criou o seu rinoceronte. Enquanto desenhava, tinha na cabeça um monte de histórias sobre dragões. Por isso o seu animal ganhou umas placas sobre o corpo e um chifre adicional nas costas. O curioso é que a imagem, feita por alguém que nunca tinha visto um rinoceronte de perto, tornou-se uma referência para todos os que procuraram representar o bicho até o século XIX, antes da invenção da fotografia.

Os desenhistas iam a campo, olhavam para o rinoceronte bem de perto, quase sentindo o seu bafo, e desenhavam alguma coisa parecida com a segunda imagem. E ainda saiam alardeando que “agora sim o mundo saberia como era um rinoceronte de VERDADE!” Mas lá estava o fantasma do rinoceronte de Dürer que, afinal de contas, é muito mais interessante que o verdadeiro.

Finalmente temos a fotografia. Mas não nos apressemos em concluir que nós somos mais espertos e conhecemos o rinoceronte real – que os antigos não conseguiam ver por causa da insistente xilogravura de Dürer. A fotografia não é mais do que uma imagem bidimensional impressa em um pedaço de papel (ou exibida em um monitor de computador). Não é o rinoceronte. Nós também precisamos da nossa imaginação e de um certo APRENDIZADO para entender essa informação como a representação de uma figura tridimensional.

Como a coisa funciona

Todo mundo já deve ter passado pela situação de ter que preencher um formulário qualquer e não encontrar a opção em que se enquadraria. Por exemplo, entre “casado” e “solteiro”, como ficam os que não são nem um, nem outro? Entre “masculino” e “feminino”, como ficam os que não se encaixam perfeitamente? Pois então. Muitas vezes somos obrigados a deixar entre parênteses alguma característica singular para nos encaixarmos em um padrão. O formulário nos olha e destaca da infinidade de elementos de que somos constituídos uns três ou quatro que são suficientes para nos definir.

O mesmo acontece quando olhamos para alguma coisa e tentamos desenhá-la em um papel (o mesmo acontece quando tentamos descrevê-la usando palavras, mas o exemplo do desenho é mais prático). Quando desenhamos figuras humanas, quase sempre usamos o velho e simples “formulário” que nos oferece cinco riscos e um círculo. Cabeça, troco e membros. Para diferenciarmos meninos de meninas colocamos um “risquinho” a mais cortando o círculo, fazendo um chapéu. Ou um triângulo onde se juntam o tronco e os membros inferiores indicando uma saia. Claro que sabemos que aqueles riscos acompanhados de um círculo NÃO SÃO uma pessoa. Mas concordamos que em certas situações “simbolizam” adequadamente uma figura humana.

O fato é que o “ver” depende muito daquilo que APRENDEMOS a ver, do que QUEREMOS ver e do que QUEREM que a gente veja. Quem for mais cético pode fazer uma experiência. Olhe para onde o nariz apontar. Digamos que você olhou e enxergou um cachorro. Pegue agora uma folha em branco e tente desenhá-lo. Para a maioria das pessoas deve ser difícil ou quase impossível. Para mim seria impossível. Não sei desenhar nem uma linha torta. Mas por que é tão difícil para a maioria das pessoas? É difícil porque as pessoas não têm um esquema ou um formulário que as ajude a selecionar, dentre uma variedade enorme de informações, o que interessa de fato. Simplesmente não saberiam por onde começar. Às vezes, menos é mais, ou seja, quem não tem um formulário para filtrar a realidade pode ver em excesso.

A pessoa que desenha (e a que VÊ e DESCREVE, afinal) não começa pela impressão visual, mas por um conceito ou por uma fórmula básica pré-definida que ela aprendeu. Aquilo que é único é acrescentado posteriormente. É muito parecido com o preenchimento de um formulário. Vamos supor que alguém tinha um “esqueminha” pronto para desenhar cachorros. Ele colocou então o “esqueminha” no papel e depois acrescentou alguma informação para ajudar na identificação daquela figura como o Rex. Imaginemos que o Rex era preto com uma mancha branca nas costas. O desenho pode ser totalmente diferente da realidade, mas, por isso mesmo, o seu autor vai caprichar na mancha, que significará uma espécie de grito: “ESSE É O REX, OLHA A MANCHA DELE AQUI!” Se o desenhista for péssimo, ainda resta a alternativa de colocar uma legenda – REX – e fica pronta a obra de arte. É claro que há formulários que são mais detalhados que outros. Uns perguntam idade, sexo e estado civil. Outros perguntam até para que time você torce. Mas o princípio é o mesmo. É uma questão de mais ou menos informações. Compare um desenho a lápis com uma fotografia. Mais ou menos informações. Em nenhum deles a realidade está inteiramente presente, e não poderia.

No caso dos rinocerontes, a xilogravura de Dürer foi, durante quase quatro séculos, o Gafanhotoformulário cognitivo próprio para desenhá-los. E o cara nunca tinha visto um bicho desses de perto. O mesmo acontece com a figura (ao lado) encontrada em um panfleto alemão de 1556. Noticiava a ocorrência de uma invasão de gafanhotos. O texto que acompanha a figura afirma que a gravura é uma cópia exata da espécie de gafanhotos responsável pela invasão. Acho que todo mundo conhece um gafanhoto. Parece um grilo metido a besta. Não tem muito a ver com o que foi desenhado. Na verdade, o desenhista usou o “esqueminha” de desenhar gafanhotos que ele encontrou em uma edição ilustrada do Apocalipse. Além disso, a PALAVRA alemã para gafanhoto é “heupferd”, que significa cavalo-do-feno. Não por acaso, o inseto da gravura ficou parecido com um cavalo empinado.

Repetindo: O fato é que o “ver” e o “representar” dependem muito daquilo que APRENDEMOS a ver, do que QUEREMOS ver e do que QUEREM que a gente veja. Precisamos ficar atentos e críticos em relação aos formulários que utilizamos. Na maior parte das vezes, introjetamos esses formulários na interação com os pais, com os pares, com professores, com os livros, com a mídia e não nos damos conta dos significados que carregam.

Pense bem: as palavras que usamos para representar o mundo à nossa volta funcionam como os formulários. Guardam esquemas conceituais que direcionam o nosso olhar e a nossa compreensão. Não são neutras. Somos reféns desses esquemas se não os investigamos criticamente. Toda observação se baseia em pressupostos interpretativos que filtram a realidade. Toda descrição resulta de um olhar, mas também de uma cegueira. Precisamos saber o que os nossos formulários escondem para descobrirmos o que eles estão, de fato, mostrando.

Se não ficamos atentos a essas questões, ainda mais nos dias de hoje em que as informações circulam numa velocidade estonteante e numa quantidade indigesta, corremos o risco de repetir o que fazia o desenhista do século XIX que ia a campo para retratar “cientificamente” o rinocerante. Enxergava o fantasma do rinoceronte de Dürer e desenxergava o animal que estava bem na sua frente.

(Referência: Gombrich, E. H. Arte e ilusão. São Paulo: Martins Fontes, 1986.)

Esse post foi publicado em Coisas do mundo, Posts requentados. Bookmark o link permanente.

4 respostas para Os olhos vêem, o cérebro passa a limpo, e usa formulários

  1. Virgilio disse:

    Mais um grande texto que dá gosto de ler…
    SE VOCÊ É ALUNO DO CARLOS, ENTENDA ISSO, CRIATURA, ou então escreva na prova citando a referência.
    Se não for aprovado como deve, fará uma grande figura.
    Se não for, leia de novo, serve pra quase tudo.
    Até e principalmente para o direito penal, a contenção penalocêntrica é assim como o rinoceronte de Dürer.
    Só que devasta bem mais…
    Há uma palavra própria pra gafanhoto em alemão “HEUSCHRECKE”. Por cavalo do feno eu não conhecia…

  2. Carlos Magalhaes disse:

    O “cavalo do feno” é citado pelo Gombrich referido no final. Em alemão sou profundamente analfabeto.

  3. virgilio disse:

    Com esse sobrenome (Gombrich) a chance é do cara saber MESMO alemão.

  4. Livio disse:

    Amigo, precioso artigo.

    Só gostaria de apontar um pequeno problema: A gravura de Dürer e a ilustração do livro não retratam o mesmo mamífero apontado na foto – aparentemente, um rinoceronte branco, mas sim, um Rinoceronte de Java:



    Muda um bocado a perspectiva, não ?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s