Artigo 121 – Matar alguém

[A partir da entrevista concedida pelo protagonista]

Conheci a Dalva num bar do centro da cidade. Ela tava com um pessoal tomando cerveja e conversando. Ninguém da turma dela foi com a minha cara. Menos ela, que me olhou e sorriu. Quando passou por mim, indo ao banheiro, conversamos um pouco.

Alguns dias depois, nos encontramos no mesmo lugar. Dessa vez tava sozinha.

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"Eu sou aquela que vos recebo, de braços abertos e com Amor. Uma espécie de 'mãe adotiva' prá vos reeducar com rigor! "

Tomamos cerveja e conversamos muito. Ela pagou. Meu dinheiro só dava pra umas pingas. Ela me levou ao quarto onde morava. Ficava num hotel na rua Oiapoque. O hotel era do seu irmão. Ela fazia faxina e, além do salário, tinha direito à moradia. Não fiquei muito tempo. Disse que o irmão não ia gostar de me ver no quarto com ela.

Acabamos engatamos um namoro firme. Quando ela me apresentou ao irmão, ele disse que tava precisando de um porteiro. Como eu era alto e forte… pensou em me chamar. Na verdade, a Dalva já tinha arranjado tudo. Passei a trabalhar no hotel e morar no quarto com ela. Foi a melhor época da minha vida. Ainda mais depois que tivemos a nossa filha. Nos dávamos muito bem e fiquei amigo do Josué, o irmão. Eu nem acreditava. Era bom demais pra ser verdade.

Num dia de folga, estava andando pela rua, quando vi um movimento estranho. No beco que dividia duas fileiras de casas, um homem tentava comer  uma mulher à força. Meu sangue subiu todo pra cabeça. Fiquei louco de raiva. Arranquei o cara de cima da mulher e enfiei uma faca na barriga dele. Matei porque podia ser a minha mulher ou a minha filha. A mulher chorava muito, mas mesmo assim conseguiu me agradecer.

Não sei como, mas a polícia me achou. Alguém deve ter visto. Fui preso. Condenado a seis anos. Minha pena foi dimuída e ganhei regime aberto porque o juiz achou que eu tinha motivo pra fazer o que fiz. A mulher testemunhou a meu favor. Pra mim, não foi muito justo. Mas podia ser pior. Dava pra continuar trabalhando e morando com a Dalva no hotel.

Algum tempo depois, estava andando na rua, um cara pulou pra cima de mim com uma faca. Furou a minha barriga. Consegui tomar a faca e revidar. O cara morreu. Era o irmão daquele que tentou estuprar a moça. Queria vingança. Mas eu podia deixar ele me matar? Tinha que me defender.

Fui preso mais uma vez. Apesar de ter matado o sujeito com a faca dele mesmo, dei o azar de pegar um juiz que achou que a culpa era minha. “Motivo fútil”, ainda por cima! Me deu doze anos, regime fechado. Por isso estou aqui. Penso toda noite que o juiz achava, no fundo, que o certo era eu morrer.

A Dalva arranjou outro marido. Eles já têm dois filhos. De vez em quando ela traz a minha filha pra me ver. Até o marido dela já veio uma vez. É uma boa pessoa. Disse que quando eu sair posso ir à casa deles pra ver a minha filha. Mas eu falei com a Dalva pra mandar outra pessoa trazer a menina. Não acho certo ela ficar me visitando. Ela é casada.

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9 respostas para Artigo 121 – Matar alguém

  1. Virgílio disse:

    Só dizendo elegantemente como a madre superiora:
    PQP!
    Texto tão lindo que parece até ficção.
    Dura a literatura quando é assim: de verdade.
    A foto é muito boa também, pode-se saber de onde?
    Ou o autor tá “dispensando pescoço”?

  2. Carlos Magalhaes disse:

    Tem um pouco de ficção. Ou melhor, é verdade e é ficção, se é que é possível dizer isso. A foto é da Dutra Ladeira. E a legenda é de um texto que achei lá chamado “Mãe Dutra”.

  3. Tiago Aguiar disse:

    Meu caro Carlos.

    O texto é lindo!

    Eu tive uma pequena experiência com prisões. Na época era estagiário em um escritório que representava agentes penitenciários, assim a cada assembléia visitávamos as prisões aqui de minha terra, o Rio Grande do Norte.

    Conheci as penitenciárias de Alcaçus, Caicó, Pau dos Ferros, e Mossoró, além dos Ceducs. Medieval, apenas pode ser dito isso.

    Lá tive a oportunidade até de conversar com vários detentos, sedentos de atenção e até de um rosto amigo. São pessoas, simplesmente. Possuem paixões, desejos, vícios, e para o espanto de alguns, virtudes. Sei que isso tudo não é novidade para você.

    Fico pensando na luta imensa que é humanizar o sistema carcerário. Penso em como se tratavam os leprosos, os loucos, e tenho esperança que nossa sociedade consiga evoluir, ascender. Pessoas como você reforçam esta esperança.

    Saudações fraternas

    • Carlos Magalhaes disse:

      Obrigado, Tiago. Pois é, aqui em MG o discurso da “Secretaria de Defesa Social” (olha o nome!) é de mais e mais encarceramento, com privatização inclusive. O site da secretaria é “enfeitado” com a foto de uma prisão… É o controle do crime como indústria, como diz o Nils Christie…

  4. Bruno Cava disse:

    Há 150 anos, era normal pessoas serem arrancadas de sua terra natal, agrilhoadas, aculturadas, açoitadas para trabalhar, acondicionadas em senzalas. Hoje isso é inominável. Quem sabe daqui a muitos anos também não haverá consenso ao redor do escândalo do encarceramento de criminosos.

    • Carlos Magalhaes disse:

      Pois é, Bruno. Espero que as pessoas não demorem muito para começar a entender que o encarceramento só reproduz e agrava o problema que supostamente combate.

  5. Márcia disse:

    Carlos, tenho saudades das suas aulas, pena que não pude aproveitá-las tanto quanto deveria.
    Texto muito bem escrito e bastante comovente.
    Parabéns!

  6. Virgílio disse:

    Carlos, olha só que lindo isso o que a Márcia diz:
    “tenho saudades das suas aulas, pena que não pude aproveitá-las tanto quanto deveria”.

    Como se diz na vaquejada: “valeu o boi”.

    Um elogio desses vale mais do que dinheiro.

    Mas BEM FEITO, MÁRCIA!
    Agora é tarde.

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