Oco do peito, peito aberto

Uma música antiga, de um antigo Caetano Veloso, dizia assim: “Eu sei que o mundo/ É um fluxo sem leito/ E é só no oco do seu peito que corre um rio.”

Gosto desses versos. A mim eles dizem que a realidade e a vida são infinitamente diversificadas, inesgotáveis e caóticas. E é só dentro peito ou da cabeça que pode existir algum sentido, algum significado. Ou seja, esse fluxo intenso, incontrolável, superabundante de uma realidade infinita só ganha alguma forma, alguma direção, algum significado, enfim, dentro de nós mesmos.

Tudo o que vivemos, fazemos, sentimos, pensamos – tudo – é, de uma forma ou de outra, uma invenção, uma construção. Como não estamos sozinhos no mundo, a realidade que se nos apresenta – e que nos atravessa – é feita em nossas interações, em nossa convivência. Trata-se, portanto, de uma construção social. A realidade é algo que experimentamos por dentro, mas que nos vem de fora. Um “fora” que não precisava ser estranho, inóspito, pois é habitado por outros igualmente humanos.

Dá pra falar que somos feitos de cotidiano e história, que vivemos no micro e no macro simultaneamente. A partir das nossas micro-interações diárias, remendamos e tecemos uma grande teia de significados que nos antecede e ultrapassa. Essa grande teia de significados, com o peso da história, cai sobre as nossas cabeças. Acabamos nos envolvendo na rede que nós mesmos ajudamos a construir.

 

Madeira

"There is a crack in everything. That's how the light gets in". (Leonard Cohen)

Os significados que passaram por dentro de cada um de nós, e que foram batidos no liquidificador das micro e macro interações diárias até virarem uma enorme trama, transformam-se subitamente em grades da gaiola em que agora estamos presos. Isso foi e ainda é a vida de quase todo mundo. Parecida com a daqueles canários belgas que já nascem engaiolados e que não sabem se virar fora de uma gaiola sem o alpiste e a água bondosamente oferecidos todos os dias pelos seus donos.

No entanto, vivemos em uma época que nos dá condições para fugirmos da gaiola. O emaranhado da rede que nos envolve é mais largo. Não pode nos prender como antes. As diferenças, a diversidade, a variedade estão estabelecidas.

Talvez seja esse o motivo de encontrarmos atualmente tantas reações paradoxalmente radicais e fundamentalistas, que procuram suprimir todas as divergências. Parece que algumas pessoas, quando se deparam com um buraco na cerca, em vez de aproveitá-lo para investigar o que existe mais adiante, correm de volta pelos corredores mais escuros, buscando os recantos mais profundos do calabouço.

Fazemos de tudo contra a tentação de passar pelo buraco da cerca. Inventamos nomes, marcamos rigorosamente o tempo como se quiséssemos segurá-lo, criamos personalidades, identidades, rótulos, preconceitos, estigmas. Tudo em nome do autoconvencimento de que SOMOS alguma coisa! De que o mundo É alguma coisa.

Fazemos isso com o mundo, com a nossa própria identidade, com o ser. Taí uma palavrinha perigosa que diz muito e nada ao mesmo tempo: “SER”. O mundo não É nada. Nós não SOMOS nada. Pelo menos não definitivamente.  Somos, o mundo e nós, ABSURDOS à espera de um significado.

A boa notícia que vem do ABSURDO é que podemos escolher o que queremos ser. Podemos escolher o mundo em que vivemos. Podemos rejeitar os significados que nos têm sido impostos e construir novos significados. E não precisamos esperar pelo futuro. Se quisermos, o futuro começa aqui e agora.

A má notícia é que muita gente não se dá conta disso (ou não quer). E ficam na gaiola esperando que seu dono venha trazer o alpiste e a água. Enquanto isso, tentam MATAR tudo que é diferente e ameaça as suas concepções pré-estabelecidas.

No peito aberto o rio pode ser largo. Por que um fio d’água apenas?

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2 respostas para Oco do peito, peito aberto

  1. Mônica disse:

    Esse texto me disse tanto que fica difícil dizer alguma coisa.

  2. Virgílio disse:

    Somos nós mesmos e nossas condições de possibilidade, Carlos.
    Às vezes incomoda de engasgar.

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