Cinismo, falsidade e anti-notícia

No livro “O Fim dos Direitos Humanos”, Costas Douzinas, citando Sloterdijk, apresenta a hipótese de que a ideologia dominante da pó-modernidade seria o cinismo. “Uma falsa consciência esclarecida. É a consciência modernizada, infeliz, na qual trabalhou o Iluminismo tanto com sucesso quanto em vão… Próspera e indigente ao mesmo tempo, essa consciência não se sente mais afetada por qualquer crítica da ideologia; sua falsidade já está reflexivamente amortecida” (Sloterdijk).

Para Douzinas, “o hiato entre o triunfo da ideologia dos direitos humanos e o desastre de sua aplicação é a melhor expressão do cinismo pós-moderno, a combinação de iluminismo com resignação e apatia e, com uma forte sensação de impasse político e claustrofobia existencial, de uma falta de saída existencial, de uma falta de saída no seio da mais maleável sociedade”.

A hipótese do cinismo como ideologia me parece muito instigante. Não vou abordar o problema do sucesso/fracasso dos direitos humanos e a expressão do cinismo pós-moderno. Quero mencionar algo mais corriqueiro e, talvez, pouco notado. Por meio dessa hipótese pude começar a elaborar um pouco o velho incômodo provocado pela maior parte das matérias jornalísticas apresentadas nos veículos de sempre.

Recomecei a pensar nisso recentemente, quando ouvi pela CBN um repórter narrando, em tom de espanto, a apreensão de um fuzil “de uso exclusivo das forças armadas” com “traficantes” numa favela do Rio de Janeiro.  O repórter enfatizou a informação de que o fuzil foi fabricado na Europa, Suíça ou sei lá onde.

Penso que essa é uma anti-notícia que só pode se sustentar no cinismo de quem a produz e veicula e de quem a consome impassível.

Garrucha

Arma do pé rapado que sabe reconhecer o seu lugar.

As armas estão entre os principais produtos da indústria. Produtos, quaisquer que sejam eles, são fabricados para serem vendidos. As vendas são feitas para aqueles que têm interesse, necessidade, possibilidade de comprar. Se as armas são fabricadas em larga escala e os tais “traficantes” querem comprar armas, onde está o espanto de a transação comercial ter sido realizada?

Em vez de repetir ad nauseam essas notícias de apreensão de armas “de uso exclusivo das forças armadas” com “traficantes”, não seria mais interessante investigar como essas armas são fabricadas na Suíça (ou onde quer que seja) e como se dá a sua comercialização até que elas chequem nas mãos de um pobre diabo empregado da venda de substâncias ilegais numa favela brasileira?

Mas essa notícia é censurada, está sob controle. Censura e controle tão bem articulados que não aparecem. Escondem-se entre a apatia e a resignação de produtores e consumidores de informação. É mais fácil continuar noticiando com uma indignação tão vívida quanto falsa que os “traficantes” do morro estão cada vez mais ousados e, “onde já se viu?”, agora compram armas da Suíça!  Se esses pés rapados continuassem com as garruchas enferrujadas e os .38 mascadores, tudo bem. Estariam ocupando o lugar que lhes é reservado. Mas fuzis “de uso exclusivo das forças armadas”? “Aonde esse mundo vai parar…?

Um sistema inteiro de financiamento, produção e comercialização é confortavelmente ignorado e a notícia é dada como se apenas o ponto final de uma longa cadeia de operações importasse. Os vagabundos agora compram fuzis! Mas os vagabundos só compram fuzis porque eles são fabricados! Não custa repetir.

Mas só os vagabundos são notícia e só os vagabundos são presos. É a mesma velha história: responsabilização individual (coletiva só quando formam “quadrilhas”) dos mais fracos para que os grandes continuem a operar sem riscos. E a fábrica de armas ainda deve ter o seu programa de responsabilidade social.

Notícias tão velhas quanto as do último minuto

O jornal O Tempo de hoje traz a notícia da prisão de traficantes de Betim que eram comandados de dentro da Penitenciária Nelson Hungria:

Três integrantes de uma quadrilha responsável pelo tráfico de drogas na região de Betim, Barreiro e em Belo Horizonte foram apresentados nesta terça-feira pela Polícia Civil.

Segundo informações da corporação, eles recebiam ordens diretas de dois detentos, de dentro da Penitenciária de Segurança Máxima Nelson Hungria, em Contagem. Os líderes da quadrilha seriam dois detentos que cumprem pena por tráfico de drogas, conhecidos como Coxinha e Paixão.

Quem são esses grandes empreendedores que comandam o tráfico de dentro de uma penitenciária de segurança máxima? Trata-se da mesma lógica: responsabilização individual dos mais fracos para que os grandes continuem a operar sem riscos. O único inconveniente será trocar os operários para que o esquema não pare de funcionar.

O jornal Hoje em Dia destaca que o Bola tinha planos para matar um delegado e uma juíza. Pelo que entendi, além de do processo pela morte de Eliza Samúdio, Bola será processado por ter pensado em matar um delegado e uma juíza.

Enquanto isso, nada é noticiado sobre um caso completamente suspeito, em que a Polícia Civil condenou pessoas antecipadamente em entrevistas coletivas, sem mostrar até agora qualquer prova consistente de envolvimento dos acusados, especialmente do goleiro Bruno.

Os consumidores dessas histórias da carochinha, treinados pelas claques que riem por eles (ou riem deles?), são atravessados diariamente por essas palavras direcionadas aos nervos que, apesar de desgastados, são ainda capazes de repercutir algumas pálidas emoções que se confundem, convenientemente, com informação.

É pura expressão do cinismo a contínua veiculação e consumo apático dessas notícias. É o cinismo como ideologia que garante que a flagrante falsidade e inverossimilhança dessas narrativas passem despercebidas.

Esse post foi publicado em Direito Penal, Direitos Humanos, Drogas, Mídia, Sociedade do Controle, Sociologia do Crime. Bookmark o link permanente.

7 respostas para Cinismo, falsidade e anti-notícia

  1. Muito boa sua exposição acerca da ideologia do cinismo, ou cínica, ou cinismo ideológico… afinal: cinismo puro!
    Não há mais notícias, apenas flashes desfocados, que mais escondem do que mostram.
    Triste!
    Seu post merece ser divulgado!

  2. Virgílio disse:

    Acredito que seja “follow the money” que se diz, professor Carlos, naquela língua monossilábica que você conhece bem. Followando o dinheiro a gente desentoca esses ratos.
    Se se segue o dinheiro, não há cinismo que não apague o sorriso.
    “Vida é loca, baguií é doido, o processo é que lento”.

    Ou como diria o Robin, esperto experto em situações assim, o sábio que não sabia sequer a ordem de colocação entre calças e cuecas:
    “- Que maçada!”

  3. Carlos Alberto Caxinga disse:

    Carlos,

    Atendendo a sujestão do meu amigo Alexandre, li o “Cinismo, falsidade e anti-notícia”, bela abordagem! O que me preocupa, é que artigos como estes não sejam vinculados nos veículos de comunicação, principalmente a mídia impressa. Mas isso, é porque, a “ideologia do cinismo”, é também, uma ideologia fatalista, como dizia o Freire.

    Parabens,

  4. Paulo Henriques da Fonseca disse:

    Olá Carlos, valeu pelo conteúdo, procurava pelo Costa Douzinas e dou de cara com um texto elaborado e comunicativo, verdadeiramente reflexivo e crítico.

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