Burrice

Assim está no Aurélio:

Burrice

[De burro + -ice.]
S. f.
1. Qualidade de burro (8); falta de inteligência: parvoíce, asnice, estupidez, burreza, burriquice.
2. Ação própria de burro (8); burriquice [ v. asneira (1) ]

Burro

12. Curto de inteligência; bronco, estúpido, imbecil, burrego, asinino

Sempre me espanto e penso na burrice. Nem preciso dizer que não gosto dela. Gente burra me dá preguiça. Concordo com tudo o que dizem, já que não é possível dialogar. Mas fico me perguntando: o que é a burrice? O Aurélio apenas cruza sinônimos. Não esclarece nada.

Curiosos os termos que são tomados como óbvios. São quase indefiníveis. Acredito que se perguntar a alguém o que é burrice a resposta será: “Burrice é burrice, uai!” Mas o que é a burrice?

Em primeiro lugar, a burrice não pode ser confundida com falta de informações. Isso é ignorância. Há pessoas ignorantes muito inteligentes. E há pessoas muito informadas e muito burras. Em segundo lugar, a burrice também não pode ser confundida com doença mental. Existem limitações neuropsíquicas mais ou menos graves que podem ou não ser acompanhadas de burrice. Terceiro, burrice não é sinônimo de desrazão. E razão não é sinônimo de inteligência. Penso mesmo que onde a razão não é compromisso a inteligência pode se expandir.

Burrice

Burrice é escolha

A burrice genuína acomete pessoas de todas as classes, de todos os grupos e de todas as condições de saúde ou doença (física ou mental).

Na minha opinião, a burrice é uma questão de escolha. Penso que todos os humanos nascem com o mesmo equipamento cerebral. O uso ou o não-uso daquilo que a evolução nos deu é opcional. Muitas pessoas optam por não usar. Esses são os verdadeiros burros.

Tecnicamente essa escolha se manifesta como uma dramática diminuição daquilo que os neurocientistas costumam chamar de “memória de trabalho”. Essa memória é uma espécie de RAM do cérebro. Deve ser grande e permanecer ativa para que o pensamento possa se desenvolver com liberdade e criatividade. Pensamentos complexos só podem prosperar quando a “memória de trabalho” está amplamente disponível.

Quando essa memória é muito pequena, o indivíduo não é capaz de trabalhar com mais de duas variáveis, com sinais sempre opostos (se A é verdade, logo B é falso). Esses pensamentos monofásicos são acompanhados de um olhar vazio e, de acordo com os mais observadores, levemente e involuntariamente jocoso.

É próprio do pensamento monofásico a desconexão entre os diferentes blocos de idéias. Por isso os burros caem sempre em contradição, embora nunca percebam esse detalhe. Ou pior, acreditam-se muito coerentes.

Os burros gostam muito de frases peremptórias. Costumam dizer: “Eu sou ‘assim’…”, “Como eu sempre digo…”, “Sempre falo a verdade…”, “Meu problema é a minha sinceridade…” “Quem fala que não acredita em Deus está mentido…”.

Em geral são muito sérios. E quanto mais sérios, mais burros. Existem também os “burros alegres”, mas são minoritários.

Mas a principal característica de todos os burros é a crença inabalável. São crentes. Acreditam piamente. Acreditam em uma realidade externa, objetiva e estável que pode ser fielmente representada pelas palavras. Acreditam que as palavras são etiquetas que se colam a coisas reais. Desconfiam de todos que não usam as mesmas etiquetas que consideram corretas.

Se a burrice é opcional, a crendeirice não o é. É efeito colateral da escolha. Tal efeito, depois de acometer aquele que optou pela parvoíce, não mais o abandona.

Enfim, burrice não tem cura.

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5 respostas para Burrice

  1. virgilio disse:

    Mais um magnífico texto, indispensável nas salas de aula.
    Ri sozinho um bom tempo.
    Acho que de mim mesmo. Acho que é porque leio e entendo.
    O correto distanciamento conceitual entre burrice e ignorância é mesmo “como eu sempre digo”.
    Mas como sempre digo a verdade, uma crítica merece ser feita: faltou-lhe conceituar o burro arrogante. Aquele que não permite o conhecimento de nenhum modo. Espécie das mais perigosas que abunda nas faculdades públicas e privadas.
    A burrice pode ou não ser irmã xifópaga da estupidez.
    A ser mais desenvolvido em outro texto.

  2. Carlos Magalhaes disse:

    Tem razão, Virgílio. Faltou o burro arrogante. Mas sobre esse personagem tenho um pensamento: se é para ser burro, que seja arrogante. Pior mesmo é a burrice humilde!

  3. Carlos Alberto Caxinga disse:

    Carlos,

    Seu texto é simplemente excepcional, que pena muitos dos quais deveriam lê não terão a oportunidade até mesma para fazerem uma autocrítica. Mas veja a letra da música do grande cantor e compositor Tom Zé sobre a burrice. Ou seja, ela também não tem ideologia.

    Burrice Tom Zé

    Veja que beleza
    Em diversa cores
    Veja que beleza
    Em vários sabores
    A burrice está na mesa

    Veja que beleza !

    Refinada, poliglota
    Anda na esquerda
    Anda na direita
    Mas a consagração
    Chegou com o advento
    Da televisão
    Da televisão
    Da televisão

    (Refrão)

    Ensinada nas Escolas
    Universidades e principalmente
    Nas academias de louros e letras
    Ela está presente
    Ela está presente

    (DISCURSO POLÍTICO)

    Senhoras e senhores,
    Senhoras e senhores,
    Se neste momento solene não lhes proponho um feriado comemorativo para a sacrossanta glória da burrice nacional, é porque todos os dias, graças a Deus, do Oiapoque ao Chuí dos pampas aos seringais, ela já é gloriosamente festejada, gloriosamente festejada.

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