As regras do jogo (ou o jogo das regras)

[Já mencionei que a “categoria” “Posts Requentados” se refere a textos anteriormente publicados em meus blogs extintos e que gosto de manter no ar. O post que segue foi publicado originalmente por ocasião dos debates subseqüentes à morte de Karol Wojtyla. A republicação foi motivada por interessante entrevista de Ricardo Godim à Carta Capital.]

Não raramente alguém constata e denuncia o fato de que mesmo as pessoas muito religiosas pecam. Contra a palavra de algum deus e seus representantes terráqueos, fazem sexo antes do casamento, usam camisinha para evitar a AIDS, usam técnicas contraceptivas, divorciam-se e abortam. Enganam os outros, deixam de pagar dívidas, fazem fofoca, blasfemam e por aí vai.

A questão, para alguns, seria: se os religiosos são tão religiosos porque não obedecem aos preceitos da religião? Não seriam tão religiosos assim? Ou são simplesmente hipócritas quando assumem uma religião e não cumprem os seus preceitos?

Nem uma coisa, nem outra. Os religiosos são apenas pessoas normais (por mais que queiram ser mais do que normais ou, isto é, perfeitos) como todas as outras e lidam com regras como todos fazem.

Ninguém se surpreenderia se levasse em conta o fato de que regras não são determinantes do comportamento. As regras, na verdade, servem para definir situações, construir jogos e orientar as pessoas sobre como jogá-los. Saber a hora certa de ignorar uma regra pode ser a diferença entre o iniciado e o novato.

Certa teoria sociológica, há muito ultrapassada, acreditava que regras seriam construções coletivas anteriores e independentes dos indivíduos. Os indivíduos seriam socializados (educados) e internalizariam as regras vindas do mundo social exterior.

estrelao

Quem já jogou futebol de botão sabe do que estou falando.al exterior.

Uma vez internalizadas, as regras determinariam, de dentro pra fora, a conduta individual. Esse modelo não corresponde à realidade empírica da vida social. As pessoas não são marionetes involuntárias controladas por regras coletivas internalizadas.

No caso dos seres humanos, entre o estímulo (a regra) e a resposta (o comportamento) existe um processo interpretativo voluntário que define o sentido de cada SITUAÇÃO. Uma SITUAÇÃO é um cenário que tem suas características negociadas e definidas por seus integrantes. Para cada SITUAÇÃO as regras são negociadas, definidas e redefinidas. Podemos dizer que em cada SITUAÇÃO jogamos um JOGO diferente. Jogar um jogo significa, muitas vezes, descumprir deliberadamente algumas regras para dar a elas – e ao jogo – um novo significado.

Existem regras de boa educação, por exemplo, que são válidas em situações em que estou diante de pessoas com as quais não tenho intimidade. Essas mesmas regras podem ser completamente subvertidas quando estou diante de amigos. Posso cumprimentar um amigo chamando-o de “viado”, “bicha” ou “filho da puta” e essa “subversão negociada”, esse outro jogo que decidimos jogar, demonstra a nossa intimidade.

(É por isso que são inválidas aquelas freqüentes desculpas de pessoas que atiram palavras preconceituosas contra os outros. “Chamei ele de negão mas tenho vários amigos negros e chamo eles assim também”. São jogos diferentes, com regras diferentes. O sentido das palavras e seu poder de agradar ou agredir muda radicalmente com o contexto.)

Existem regras cognitivas que devo seguir para entender uma afirmação que reclama objetividade, isto é, correspondência direta em relação a fatos concretos. Mas se me apego a essas regras o tempo todo não serei capaz de entender uma piada de português.

Tudo é muito complexo porque participamos de muitas situações/jogos diferentes e freqüentemente eles se contradizem de forma irreconciliável. Jogar um jogo, muitas vezes, significa abandonar outro. Só o indivíduo pode administrar essas contradições e nenhuma decisão é definitiva. As decisões são sempre provisórias, valem até o início do próximo jogo.

Ser um religioso que não faz sexo antes do casamento pode ser uma forma de participar de um jogo. Fazer sexo antes do casamento é outro jogo. Uma pessoa pode encontrar boas razões para jogar os dois. Não usar métodos contraceptivos pode ser uma regra que orienta um jogo, mas um casal religioso que se preocupa com a qualidade de vida – sua própria e dos filhos – pode entender que evitar filhos é uma regra fundamental do jogo casamento. Enfim, são contradições que somente as pessoas envolvidas podem administrar.

É claro que existem problemas morais ou éticos em relação às escolhas de situações/jogos que as pessoas podem fazer. É possível questionar ética e moralmente a escolha de ser simultaneamente adepto de uma religião que proíbe o sexo antes do casamento e, mesmo assim, fazer sexo antes do casamento.

Mas entre ser fiscal da moralidade alheia e buscar uma compreensão da complexidade das situações em que as pessoas se encontram diariamente na vida real, a segunda alternativa é muito mais interessante.

Esse post foi publicado em Coisas do mundo, Posts requentados, Religião, Sociologia de Boteco. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para As regras do jogo (ou o jogo das regras)

  1. virgilio disse:

    ninguém fala, carlos, que o polaco era de extrema direita. um nojo.
    e por falar em papas, não era inocêncio III que dizia que “todos podem ser torturados”?
    como crer que um cara desses possa representar o deus deles?

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