18 DE MAIO, PARECE QUE FOI ONTEM

(1ª parte)

Imagens do 18 de maio: clique aqui

Virgílio de Mattos[1]

Um dos movimentos mais organizados Get Shortlinkda atualidade, o da Luta Antimanicomial, saiu às ruas ontem em todas as grandes cidades do país. Se na sua cidade não houve nada disso, de duas, uma: ou você não mora em uma grande cidade ou o nível de atenção e cuidado ao portador de sofrimento mental aí onde você mora anda baixo e em baixa.

Laila Vieira de Oliveira, militante das Brigadas Populares e que pilotou o microfone do último caminhão de som, revezando com a coordenadora de Saúde Mental do Município de Belo Horizonte – na luta é assim: seja cacique ou índio, todos estão na mesma taba, realizando suas tarefas na medida de suas possibilidades – escreve dizendo que se perguntarem a ela o que teria sido o mais importante dentro da programação, ela não saberia dizer.

Se a gente passar por todos os espaços de discussão, por todos os ambientes de construção de fantasias, pelos debates insensatos que nunca se acabam, pelas frases: “Pós conceito”, “Pela Extinção do Fim”, “Contra a Redução da Maioridade Penal”, “Pela volta do hebraico aramaico antigo”, não saberíamos por onde passa tanta criatividade, tanta possibilidade de colocar pra fora o que a loucura manifesta e já que estamos de frases, mais uma num estandarte: “Em Minas ninguém enlouquece, se manifesta!”.

18 de maio

Fico pensando nas frases. A última é fácil, é de Fernando Sabino. Pela volta do “hebraico aramaico antigo” eu fico pensando que seja proposta do Itamar, é a cara dele, levando água e dizendo que estava fazendo o trabalho do Criador – e não é que estava? “Pós conceito” me emocionou, tem jeito de ser de estudante inteligente, fico imaginando aluno de quem, de psicologia. “Contra a redução da maioridade penal” eu suponho que tenha sido da própria Laila, ou alguém da organização dela. Mas não duvido que o geist do próprio Conselho Federal de Psicologia a tenha posto em discussão, pois se trata de plataforma também daquela firme entidade de classe. A extinção do fim, francamente, eu não apoio. Mas que tenha um bom começo e um excelente meio no meio.

Por isso não vi ninguém do poderoso cartel dos donos de manicômios privados e seus empregados, os psiquiatras hospitalocêntricos, esses coitados que não sabem que dinheiro é só papel pintado.

Senti demasiado a falta de Aparecida Celina, tadinha, impossibilitada de andar. Logo ela, que tanto faz correr a luta e – prova cabal da inexistência de deus – teve um acidente doméstico que a impediu de caminhar e, otimista como sempre, supôs fosse a manifestação televisionada.

A Revolução, mesmo essa grande pequena revolução que é feita todo 18 de maio, nas ruas de Belo Horizonte, não será televisionada, querida Aparecida Celina. Mas eu vi você lá em diversos momentos, e ria de mim mesmo: presta atenção que delírio tem hora…

Vi Zé César, vi Didi, vi César Campos. Esse tava mesmo, de verdade. Tem um serviço com o nome dele. Por que não um com o nome do Zé César, outro com o nome do Didi? Fiquei pensando agora, será que já não pensaram nisso antes?

Não me lembro de ter escutado a voz das vozes falando de uma sociedade sem exploradores e explorados. Lembro de ter pedido isso a ela, quando virávamos para descer agora a Rua Rio de Janeiro. Ela riu e entendeu. Só a gente mesmo, esses loucos, pra conseguir se comunicar numa hora dessas e com um pedido tão singelo, como quem pede um gole da água, como quem pede um pedaço do pão.

O fundamental, penso, é que as vozes que alguns escutam puderam ser escutadas por toda a cidade.

Eita 18tão de maio, parece que foi ontem!

(Vou voltar ao assunto.)


[1] – Do Grupo de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade. Do Fórum Mineiro de Saúde Mental. Autor de Crime e Psiquiatria – Preliminares para a Desconstrução das Medidas de Segurança, A visibilidade do Invisível e De uniforme diferente – o livro das agentes, dentre outros. Advogado criminalista. virgilio@portugalemattos.com.br

 

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