18 DE MAIO, PARECE QUE FOI ONTEM

(final)

Imagens do 18 de maio: clique aqui

Virgílio de Mattos[1]

É preciso voltar na história do tempo de Foucault para entender a História da Loucura de seu tempo, conforme penso.

Temos que voltar no tempo e procurar chegar a 1945, quando Foucault foi reprovado na admissão para espécie de ingresso ao equivalente a nosso mestrado e em 1946 está na École Normale de Paris e começa a estudar seriamente o alemão. O início da licenciatura em psicologia dá-se no ano seguinte. Quando termina sua licenciatura em Filosofia (1948), tenta o suicídio pela primeira vez.

Não me move “fofoca acadêmica”, mas sem sabermos a trajetória fica difícil encontrar o rumo do rumo daquilo que ele aponta como norte de bússola.

Tem o temperamento “difícil”, está frequentemente “zangado, estranho, selvagem, colérico e solitário”, como dizem seus contemporâneos. É internado pelo pai em Sant’anne[2] e o diagnóstico é implacável: “homossexualidade mal resolvida e mal vivida”.

Em 1950, ano em que entra para o Partido Comunista Francês e ali permanecerá por pouco mais de ano e meio, tenta novamente o autoextermínio.

A partir de 1951 tem acesso à psicanálise. Seu tema de concurso para a agregation é a sexualidade. Começa a estudar Heidegger. No ano seguinte termina psicopatologia em Paris e trabalha na interpretação do Teste de Rorschach. Tem problemas com o álcool. O álcool vai culminar no vexame em Varsóvia, alguns anos mais tarde.

Em 1954 publica sua primeira obra Maladie Mentale e Personalitè, encomendada por Althusser.

No natal de 1955 conhece Roland Barthes e vivem juntos até que Barthes se mate. Talvez o verdadeiro punctum, dessa tragédia, para dizermos com o próprio Barthes.

Foucault mergulha fundo na literatura médica em Upsala, onde recebe Camus em 1957. Seu comportamento continua complicado, mesmo para os padrões suecos.

Tenta, atormentado, entender a própria loucura buscando a arqueologia do silencio feita em relação à loucura dos outros. A história que investigou, “sem as mãos sujas dos documentos primários, porque tinha a cabeça nas nuvens”, como ele próprio respondeu certa feita, era a mesma história dele mesmo.

Na modernidade, quando a experiência trágica é confiscada, a loucura torna-se doença mental. Ele vai estar atento a isso e aqui penso fundamental você, leitor atento, dar um pulo no imperdívl Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão.[3] Talvez facilite o seu aprofundamento. Mal algum irá fazer.

A História da Loucura só pode ser lida como uma arqueologia da percepção da loucura. É dele mesmo a advertência, na obra[4] que se comemora o cinquentenário:

“A civilização, de um modo geral, constitui um meio favorável ao desenvolvimento da loucura. Se o progresso das ciências dissipa o erro, também tem por efeito propagar o gosto e mesmo a mania pelo estudo; a vida em gabinete, as especulações abstratas, essa eterna agitação do espírito sem exercício do corpo podem ter os mais funestos efeitos”.

Percebeu porque só se pode fazer a comemoração dessa obra ocupando todas as saídas? Quando nada “as ruas, viadutos e avenidas”, que nos dizia o poeta.

“Loucura é ruído, é rumor”, ensinava Foucault. Agora clareou?

 


[1] – Do Grupo de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade. Do Fórum Mineiro de Saúde Mental. Autor de Crime e Psiquiatria – Preliminares para a Desconstrução das Medidas de Segurança, A visibilidade do Invisível e De uniforme diferente – o livro das agentes, dentre outros. Advogado criminalista. virgilio@portugalemattos.com.br

[2] – Hospital Psiquiátrico.

[3] – RU : Graal, 1977, passim.

[4] – História da Loucura, SP : Perspectiva, 2ª Ed., 2ª tiragem, 1989, p. 366.

Esse post foi publicado em Antimanicomial, Antiprisional, Datas, Direitos Humanos, Mídia. Bookmark o link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s