Pode deixar que me entendo com o Diabo

As últimas notícias sobre as movimentações dos deputados religiosos contra o reconhecimento e expansão dos direitos LGBT são preocupantes. Não vou entrar na discussão sobre o suposto cancelamento do programa “Escola Sem Homofobia” para não especular sobre informações imprecisas.

De qualquer forma, as concessões que candidatos e governantes têm feito a movimentos religiosos retrógrados (evangélicos e católicos) são perigosas, merecem a atenção e o repúdio daqueles que prezam a liberdade, o Estado laico e o direito à diferença. São essas concessões que têm ajudado os militantes do obscurantismo a crescerem e acreditarem cada vez mais que podem impor as suas regras àqueles que não as querem.balao

Não gosto de opinar publicamente sobre as escolhas religiosas dos outros. Não me interessa dizer a alguém que, do meu ponto de vista, a sua crença é equivocada. Também não vejo grande problema nas práticas de certas igrejas e de seus membros.

Querem acreditar que Jesus vai garantir a prosperidade àqueles que pagam o dízimo? Tudo bem. Querem acreditar que a oração cura doenças? Boa sorte. Querem acreditar que existe um deus pendurado em algum lugar que seleciona as pessoas de acordo com quem, quando, onde e como fazem sexo? Fiquem à vontade. Se as pessoas estão dispostas a acreditar nessas coisas, o problema é delas.

Não penso que as igrejas e pregadores tenham de ser necessariamente condenados. Desde que não peguem ninguém à força – ou se aproveitem da vulnerabilidade de alguns – para enfiar idéias dentro de sua cabeça, estão resguardados pela liberdade de expressão (o que não exclui responsabilização pelas possíveis conseqüências de suas falas). Se apenas mantêm as portas de suas igrejas abertas, transmitem pelo rádio e pela televisão; para quem quiser entrar, ouvir ou assistir, não vejo problema.

No entanto, quando o proselitismo se converte em estratégia política, sinto necessidade de me posicionar. Enquanto mantiverem as portas e os canais de tevê abertos para quem quiser entrar, não me importo (desde que não aumentem o volume). Mas a partir do momento em que decidem “transformar o mundo”, “evangelizar a sociedade” e impor as suas regras e estilo de vida a todos e principalmente aos desconformes, sou radicalmente contrário.

Não tenho nada, em princípio, contra a religião, mas tenho tudo contra o fundamentalismo catequista. Se quiserem viver nesse mundo de preconceitos e fobias diversas que cultivam, que vivam. E quem quiser se juntar a eles que vá em paz e que o Senhor os acompanhe. Mas esqueçam os que não se interessam por suas regras, que não querem viver do mesmo jeito.

Deus falou que vocês têm a obrigação de espalhar a palavra? Digam a ele pra rever essa ordem porque o pessoal aqui tá muito arredio. Se o negócio desandar de vez ele pode recorrer ao dilúvio, como daquela outra vez. Vou para o inferno? Pode deixar que me entendo com o Diabo.

Esse post foi publicado em Ateísmo, Coisas do mundo, Direitos Humanos, Mídia, Religião. Bookmark o link permanente.

5 respostas para Pode deixar que me entendo com o Diabo

  1. Muito bom! Simples, claro e direto ao ponto.

  2. Mônica disse:

    Vou te fazer companhia no inferno.😉

  3. Bruno Cava disse:

    Se por acaso passar no inferno, não esquece de dar o meu endereço pro Diabo.

  4. Rita Márcia disse:

    Não quero ir para o inferno porque o diabo também não é lá boa bisca… mas para o paraíso que proibe, condena e oprime… também tô fora. Onde será que vou parar?

  5. Virgílio disse:

    Um dos textos mais brilhantes que já li sobre o assunto, Carlos.
    Que coisa boa, como fico feliz de ter a sorte de ler e entender.
    Só um reparo: O diabo não existe, bobo, é só uma invenção pra venderem terços e rezas, bíblias e água benta.
    Mas se existe é dono de mineradora, ou de banco, disso tenho certeza.
    Abração, esteja onde estiver!

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