TV Mentira (você tem medo de que?)

As tardes em Belo Horizonte têm começado com mais uma enorme homenagem à burrice infantilóide desde que começou a ser exibido (pela afiliada do SBT em Minas) um programa de nome “TV Verdade” . O nome do programa só não é pior do que a fala de abertura do apresentador: “A verdade, somente a verdade, nada mais do que a verdade”.

Na última terça-feira trataram da maconha. Pra quem tiver coragem, está disponível aqui.

O convidado mais eloqüente (isto é, o que gritou mais alto) repetiu a opinião indigente de que os usuários (de maconha) são os responsáveis pelo tráfico de drogas.

Faltou alguém para lembrar que a procura por substâncias ou práticas que modificam a consciência é tão antiga quanto o homem. Pode-se dizer que faz parte da natureza humana. Criminalizar o que é inevitável e impossível de coibir é a “melhor” forma de criar um problema sem solução. Se o abuso de substâncias entorpecentes é um mal, mal ainda maior é torná-lo um crime.

Eggleston

Você tem medo de que? (foto de William Eggleston)

O problema, portanto, é a proibição. É o que dá origem e sustentação ao tráfico e à violência que pode acompanhá-lo em algumas situações. Se as drogas não fossem proibidas, poderiam até ser um problema sério de saúde pública, mas não seriam um problema insolúvel de criminalidade violenta.

De mais a mais, qual seria o mal tão profundo e específico relacionado às drogas que justificaria tanta paranóia? Não vejo nenhuma resposta racional para essa pergunta.

Danos à saúde? Mas eles também são causados pelo trabalho em excesso, pela falta de trabalho, pela poluição, pelo escapamento dos automóveis, pelos antidepressivos, pelos ansiolíticos, pela automedicação, pela falta de remédios, pelo excesso de exercícios físicos, pelo sedentarismo, pela obesidade, pelas dietas de emagrecimento, pela televisão, pela internet e pelas substâncias químicas que comemos inadvertidamente todos os dias.

Vamos proibir tudo isso?

As drogas provocam efeitos psíquicos indesejáveis? Talvez sim. Mas não acho que a sanidade mental seja uma característica freqüente entre os humanos. Portanto, não é nada fácil definir quais seriam os efeitos psíquicos desejáveis e os indesejáveis e o que os provoca.

Na verdade, acho que essa histeria toda que tem tomado conta das discussões sobre as drogas não é mais do que uma conseqüência da infantilização cada vez mais intensa que marca o pensamento e a cultura na atualidade.

A demonização das drogas é política pública nos Estados Unidos desde a década de 1930,quando teve início o reinado de Harry Anslinger no U. S. Bureau of Narcotics. Com exceção de um ou outro período de maior liberalidade (como em parte do governo Jimmy Carter – 1977 a 1981), a política de “guerra às drogas” norte-americana – exportada a ferro e fogo para o resto do mundo – sempre seguiu a concepção original – e evidentemente mentirosa – de Anslinger.

Mas o pensamento infantilizado não quer conhecer a história da criminalização das drogas ou do que quer que seja. Quer apenas criar monstros e espalhar o medo infundado.

Parece ser a forma encontrada para esconder os problemas que são de fato preocupantes.

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5 respostas para TV Mentira (você tem medo de que?)

  1. Mônica disse:

    Lidar com os problemas de um jeito adulto é mais complicado, dá mais trabalho, não dá pauta para programas como o tal “TV Verdade”, né? Isto que você falou para mim é, sim, verdade: “Pode-se dizer que faz parte da natureza humana. Criminalizar o que é inevitável e impossível de coibir é a “melhor” forma de criar um problema sem solução.”

  2. Carlos Alberto Caxinga disse:

    Carlos,

    Existe uma sabedoria budista que fala que “a verdade se torna mais clara, quando se fala a respeito”, não é com este objetivo que em nosso país a grande mídia trata os temas tão relevantes para a sociedade. A verdade que eles também, não falam, é que o sistema capitalista não está interessado em acabar com o tráfico de drogas porque movimenta cifras astronômicas favorecendo o capital pelo mundo afora, uma vez que não paga imposto, outra verdade, é que a violência que massacra os jovens nas periferias dos grandes centros urbanos está relacionada, também, a outros fatores e fundamentada no dawinismo social e no maltuzianismo, teorias que justificam as contradições do capitalismo.
    E por fim, é que a pior droga é comercializada e consumida livremente todos os dias, em todos os cantos do Brasil, que é a droga do breganejo (dizem que é certanejo), o fank, o axé e outras coisitas mais, drogas que causam o retardamento do telecéfalo e impõem o fatalismo.

    Muito bacana seu texto.

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