A verdade é o contrário

“O Prisioneiro da Grade de Ferro” é um documentário que faz valer a frase de Eduardo Coutinho: “O que se filma é o encontro e não a realidade: o encontro de uma equipe de cinema com o outro”. Paulo Sacramento radicalizou essa idéia. Entregou as câmeras nas mãos dos presos. Deixou que escolhessem o que era, para eles, mais relevante. Mais de uma vez vemos imagens dos presos operando a câmera. Lembram-nos que estamos vendo aquele universo através dos olhos-camêra de alguns detentos. A narrativa “do ponto de vista do preso” é privilegiada também na composição da trilha sonora que utiliza músicas compostas e/ou interpretadas pelos próprios “personagens”. As músicas figuram como “descrições nativas” da vida na prisão.

A seqüência que mostra em close as fotos das mulheres nuas pregadas na parede é um bom exemplo da narrativa “do ponto de vista do preso”. Para quem está do lado de cá da tela e dos muros parece, a princípio, algo um tanto inconseqüente, mas o filme nos estimula a pensar nas escolhas que foram feitas pelos presos-cineastas. Perguntado sobre a foto de uma “ninfeta” que está faltando, um preso diz que a polícia arrancou durante uma blitz. PENITENCIÁRIA. Lugar de sofrer. As autoridades não descuidam de fazer sofrer.

Implosão do Carandiru

O monstro renasce em algum lugar

A abertura do filme recupera, a partir das imagens da implosão do complexo penitenciário exibidas de trás pra frente, o Carandiru que será mostrado na seqüência. Ligado ao final do documentário, que apresenta a fala das autoridades e a menção ao recorde de abertura de vagas alcançado pelo governo do estado de São Paulo, o plano inicial nos leva a questionar o significado da desativação e demolição do maior presídio da América Latina. A fala do preso nigeriano nos dá uma pista: Alguém será beneficiado, mas não os presos. O monstro renasce em algum lugar.

A verdade da Casa de Detenção se mostra, no início do filme, pela “palestra da triagem”. O funcionário, depois de fazer algumas afirmações irônicas sobre o novo status de “reeducando” daqueles que entram e sobre as obrigações que o Estado deixa de cumprir, sentencia: “vocês estão entrando no sistema penitenciário”. É o início de um mergulho no “sistema” que não terá mais nada a ver com uma idéia organizacional abstrata ou com qualquer formalismo legal.

O “sistema” real é constituído pela precariedade da situação de vida de cada detento – a morte violenta está à espreita. Constituído pela precariedade do atendimento de saúde (pessoas apodrecem vivas), do exame de CTC (Comissão Técnica de Avaliação) que nega sistematicamente o direito à progressão de regime. Pelas alternativas de trabalho e educação (sintomaticamente o recurso mnemônico para a informação completamente inútil de que existem 111 elementos químicos na tabela periódica é a referência aos 111 mortos no massacre de 1992). Constituído pela população de ratos que certamente ultrapassa os mais de 7000 homens que sobreviviam lá dentro.

Logo de início, vemos imagens de uma galeria. Pessoas mostradas à distância, percorrendo a galeria fria, dão uma idéia de impessoalidade. Mas em seguida somos apresentados a alguém que começa a preparar o café. O ambiente da cela é bastante modificado pela intervenção pessoal. Cada cela ou “barraco” é um mundo. O café confirma a suspeita de que estamos na casa de alguém ou, pelo menos, no lugar onde alguém mora. Nas apresentações de alguns participantes do filme, acompanhadas das imagens dos prontuários, ouvimos a frase: “moro no pavilhão…” Morar e estar preso são situações antagônicas. Os presos moram em um lugar que se preocupa com eles apenas na hora da contagem. No mais, basta que estejam sofrendo.

O filme mostra os empreendimentos ilegais sem os quais a cadeia não funciona. Mercado de venda e locação de tevês, ventiladores, roupas, tênis, itens de higiene pessoal. Produção interna e venda de cachaça. Venda de maconha e crack. Cada pavilhão tem os presos que se especializaram e se ocupam desses negócios. Revela-se falsa a afirmação de uma autoridade ao final de que a prisão é controlada pela direção. A verdade é o contrário.

A visita é o momento mais esperado do cotidiano do preso. Não por acaso, a véspera da visita é o dia da grande faxina. Para os familiares e amigos, o dia da visita não é nada fácil. Entre muitas dificuldades, destaca-se a humilhante “revista” à qual todos – homens, mulheres e crianças – são submetidos. Os presos-cineastas preferiram não abordar esse aspecto, provavelmente por respeito aos seus. Mas precisamos lembrar que todos os familiares e amigos foram virados do avesso antes de entrar. As visitas, tal como as cartas, são os vínculos que resistem ao rompimento imposto pelo “mundo à parte” constituído pelo encarceramento.

As mortes violentas resultantes de “tretas” diversas fazem parte da normalidade que se disfarça de exceção. Não por acaso, as imagens dos mortos aparecem encadeadas com as cenas do dia de visita. Lembram-nos que naquele lugar até felicidade é triste e corta.

Ao fim da tarde, quando se encerram as “correrias” do dia que ajudam a esconder um pouco da dor, é hora da tristeza mais dolorosa cair como uma montanha sobre as pessoas. A verdade se faz ouvir pelo som das batidas metálicas nas grades, anunciando a hora do recolhimento às celas. O som da “Ave-Maria” que sai pelos alto-falantes pisa em cima dos que já se encontram caídos. O trem do metrô passa à porta do presídio para lembrar a todos que não podem voltar para casa. É hora de pensar nos familiares e amigos, imaginar a futura liberdade. Pensar nos dias bons do passado e nos dias prisão que estão pela frente. Desde que estejam sofrendo, tudo está bem.

O Prisioneiro da Grade de Ferro

Documentário (2003)

Direção: Paulo Sacramento

Fotografia: Aloysio Raulino

Montagem: Idê Lacreta

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Uma resposta para A verdade é o contrário

  1. Virgílio disse:

    Essa foto é magnífica e o texto idem.
    O filme é imperdível.
    Aliás, o dia em que fizerem eleição pro gênio da raça, nem precisa ser na categoria documentário, não. O Coutinho ganha desde a primeira parte de “Cabra marcado pra morrer”.
    Na certa, com esse filme, o Paulo Sacramento se classificaria também.
    A fotografia é excelente e a cena dos ratos a Laurinha não conseguiu ver até hoje.
    Já assistimos ao filme, umas “n” vezes e cada vez é um outro filme.

    Cadeia foi feita mesmo pra fazer preso sofrer, o modelo penalocêntrico assume isso.
    Mas fazer sofrer amigos e familiares na revista vexatória é um plus que nem Bentham – o lucrativo inventor do sistema pan-óptico – poderia imaginar.

    Um dia a gente ainda verá o último presídio sendo implodido.
    Vou ter que me controlar pra não rir, senão não paro mais.

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