ESCRACHE NO URUGUAY

NOTÍCIAS DO URUGUAY III

Virgílio de Mattos[1]

Embora a questão da verdade e da justiça, no que diz respeito aos tempos da ditadura última, ande mais avançada no Uruguay do que aqui, na análise que faço, temos preocupantes pontos de contato com o mal resolvido.

A lei da caducidade de lá me parece menos mal, ainda que esteja produzindo o efeito igual ao que temos aqui no Brasil: os torturadores, os seqüestradores, os estupradores, os homicidas de estado que perpetraram todos esses crimes como crimes de lesa-humanidade, imprescritíveis portanto, continuam soltos, gastando as aposentadorias pagas pelos familiares de mortos e desaparecidos, fora o dinheiro que acumularam nos saques, nas “paradinhas” com seus amigos empresários e desonestos que tais.

Em maio último, por apertadíssima margem, a verdade e a justiça; ou melhor: a luta pela verdade e justiça no Uruguay perdeu outro round, desses em que o lutador chega a cair, acho – e quem acha não sabe nada – que se denomina a isso, na técnica do Box, de knock-down.

escrache popular

Por essa homenagem este genocida não esperava!

Mas a luta de classes não é um jogo de Box. Não é um passo de baile. Não é um drible curto ou um passe longo. Só valeriam então os exemplos próprios da luta de classes?

Só se você estiver muito amargo aos domingos. Espécie de ressaca – mesmo que você não beba – de um avanço do cerco e aniquilamento do modelo neoliberal, que estertora por todo o lado, mas ainda incomoda a muita gente. Inclusive a mim.

Estou deixando de lado os que dormirão hoje nas ruas, com fome e frio, os que morrerão de sarampo, desnutrição, over doses de descuido do Estado; isso onde não bombardeiam para fazer ruir também o Estado.

Restrinjo-me a analisar apenas este exemplo do escrache popular, que me enche de alegria, ânimo e vontade de criar “dois, três, milhares de escraches”, para dizer parafraseando outro argentino muito querido.

Não sei o que aconteceu com o escrache popular feito, por merecimento, a Enrique Bonelli, militar que agiu no plano condor, das ditaduras do cone sul, pilotando aviões militares com presos que terminaram desaparecidos ou foram lançados ao mar (os detenidos desaparecidos, para que não haja nenhuma dúvida).

detenidos desaparecidos

Detenidos desaparecidos, as placas descansando nas praças

Bonelli foi chefe da Força Aérea Uruguaya até bem pouco tempo. É o equivalente a Tenente-brigadeiro na Aeronáutica do Brasil.

Hoje está solto, impune, diz o cartaz do escrache.

Como não há justiça há escrache popular.

O cartaz convocava para a concentração na Faculdade de Arquitetura, às 18h, no dia 26 de maio. De lá marchariam para a Rua Javier de Viana, n. 978, 3º andar, apartamento 7 para fazer o escrache.

Independentemente do que lhe possa ter acontecido no escrache popular para 26 de maio – não sei de que ano – convocado, foi um grande instrumento de luta.

Com essa “homenagem” o perigoso Bonelli não contava.


[1] – Graduado, especialista em ciências penais e mestre em direito pela UFMG. Doutor em Direito pela Università Degli Studi di Lecce (IT). Do Grupo de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade. Do Fórum Mineiro de Saúde Mental. Autor de Crime e Psiquiatria – Preliminares para a Desconstrução das Medidas de Segurança, A visibilidade do Invisível e De uniforme diferente – o livro das agentes, dentre outros. Advogado criminalista. virgilio@portugalemattos.com.br

 

 

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