COSTUME SALUTAR!

 

Virgílio de Mattos[1]

Fico pensando em como nossos vizinhos do verdadeiro sul profundo, o cone sul de nuestra América, resolveram – a Argentina é o exemplo “campeão” – e ainda resolvem – o Uruguay atravessa este processo – a questão da punição dos responsáveis pelas tragédias das últimas ditaduras que tivemos a infelicidade de enfrentar, cada um à sua maneira.

O Brasil serve para exemplo de como não se fazer.

Na Argentina que tem um povo combativo e que não se rendeu nem aos ingleses – o seu povo, entenda-se -, acredito tenha surgido a ideia dos “escraches”, que além de trazer luz à questão, também produzia o efeito direto da repreensão; e tenhamos em mente que o Judiciário argentino, ao contrário do nosso Supremo, por exemplo, enfrentou a questão de forma aberta e há ditadores cumprindo pena privativa de liberdade, perpétua.

escrachesO escrache se transforma em instrumento de luta, que faz com que os escrachados sejam conhecidos nos locais onde vivem, muitos tiveram de se mudar, declaram integrantes da H.I.J.O.S., organização de familiares de detenidos desaparecidos, quesito no qual, outra vez, a Argentina é campeã.

O “modo de fazer” é relativamente simples, ensinam os representantes da HIJOS é do tipo da coisa que você pode fazer em casa: “primeiro se buscam os dados da pessoa que se irá escrachar, se faz uma espécie de trabalho de inteligência, se averigua onde mora, quais suas atividades, em que horário sai, um trabalho de inteligência, e quando já se sabe tudo isso, então se procede à organização pesquisando quais os métodos para denunciá-lo em frente à casa da pessoa, onde ela mora.”

No seu histórico início, os escraches dos H.I.J.O.S. limitava-se a colar lambe-lambes com a cara ou mesmo com os dados do genocida, a partir de 2005 eles passam a contar também com um lado “artístico”, digamos assim.

O objetivo era o de inquietar, já que não podiam ser julgados e condenados naquele momento. Os próprios H.I.J.O.S. explicam a necessidade da “prisão social”, quer dizer: não deixar os torturadores impunes, não os deixar viver tranquilos, trabalhar a questão com uma mesa aberto para que os vizinhos do bairro pudessem participar.

A “mesa” proporciona uma abertura maior à comunidade e a organização dos H.I.J.O.S. é apenas um dos participantes.

É a resposta da sociedade organizada aplicável a qualquer tipo de questão e não apenas aos torturadores do passado.

Você achou interessante? Pois eu também. Não deixe de fazer contato com os H.I.J.O.S.


[1] – Graduado, especialista em ciências penais e mestre em direito pela UFMG. Doutor em Direito pela Università Degli Studi di Lecce (IT). Do Grupo de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade. Do Fórum Mineiro de Saúde Mental. Autor de Crime e Psiquiatria – Preliminares para a Desconstrução das Medidas de Segurança, A visibilidade do Invisível e De uniforme diferente – o livro das agentes, dentre outros. Advogado criminalista. virgilio@portugalemattos.com.br

 

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