Experimenta estudar pra ver o que é que te acontece!

A mensagem transcrita abaixo circula (com variações) há algum tempo por email e nos últimos dias tem sido replicada insistentemente no Facebook [Já falei do fenômeno da replicação aqui]:

Vai transar? O governo dá camisinha. Já transou? O governo dá a pílula do dia seguinte. Teve filho? O governo dá o Bolsa Família. RESOLVEU VIRAR BANDIDO E FOI PRESO? O GOVERNO DÁ O AUXÍLIO RECLUSÃO. Todo presidiário com filhos tem direito a uma bolsa de R$862,11 “por filho”. Agora experimenta estudar e andar na linha pra ver o que é que te acontece! Se vc é brasileiro e tem vergonha do que acontece, passe adiante

Não deixa de ser um talento a capacidade de expressar tanta genialidade em tão poucas linhas. O que diz o texto? Não é fácil acompanhar um raciocínio genial. Vamos tentar. Aperte o cinto! Ligue o cérebro! Se for preciso dê uma cabeçada na parede para pegar no tranco.

“Vai transar? O governo dá camisinha.” Alguém vai fazer algo que não deveria. Ainda assim o governo incentiva. “Já transou? O governo dá a pílula do dia seguinte.” Já fez a merda? O governo colabora mais um pouco dando um contraceptivo. Mas o governo não tinha dado camisinha? Ahh… Mas o infeliz não deve ter usado. Usou pra fazer balão, só pode… “Teve filho? O governo dá o Bolsa Família.” Isto é: apesar de o governo ter dado camisinha e  remédio (o que é errado, porque o certo seria proibir essa gente de existir), aconteceu o desastre, nasceu mais uma criança. E o governo ainda vai ajudar a criatura a sobreviver dando aquela bolsa que fabrica vagabundos. Desse jeito esses vagabundos vão transar mais e vão se multiplicar mais ainda! É o começo do fim!tronco

Chega? Não. Ainda tem mais uma pérola em caixa alta: “RESOLVEU VIRAR BANDIDO E FOI PRESO? O GOVERNO DÁ O AUXÍLIO RECLUSÃO.” Pois então, o governo que não extermina essa gente ainda premia os piores. Aqueles que além de serem pobres, resolveram “virar bandido”. E ainda dá o benefício POR FILHO! Transam. Não usam camisinha. Jogam a pílula do dia seguinte no telhado. Resultado? Baby boom de pobre! Já reparou que tem preso ficando rico no Brasil!? É o fim do fim!

[Para SABER o que é o Auxílio Reclusão clique aqui e aqui]

A mensagem não fala em pobres? Não precisa. O que dá sentido ao texto é a referência implícita aos pobres, aos marginalizados. Trata-se de alguém que se julga superior falando grosso com aqueles que estariam por baixo (com quem está por cima são subservientes). Falando grosso com aqueles que não teriam nem sequer o direito de existir.

O preconceito, o racismo, o higienismo e a eugenia à brasileira são assim mesmo. Fingidos de justa indignação moral. No final das contas não passa do barulho do ranger de dentes de quem está com medo de perder seus espaços de privilégio e exclusividade.

“Agora experimenta estudar e andar na linha pra ver o que é que te acontece!” Quanto a andar na linha, não sei. Quanto ao estudo, no começo pode doer um pouco. Mas trás a vantagem de impedir que se faça papel de bobo replicando mensagens idiotas nas redes sociais.

Esse post foi publicado em Direitos Humanos, Mídia, Racismo, Violência. Bookmark o link permanente.

16 respostas para Experimenta estudar pra ver o que é que te acontece!

  1. Virgilio disse:

    e o pior, Carlos, é que essa classe mérdia babaquara (com perdão do pleonasmo) não consegue sequer ser criativa e nem, muito menos, acertar o valor do auxílio-reclusão (previsão legal que tem quase 30 anos, se não me equivoco).
    como dizia o senso comum de antigamente: “vai robá procê sê preso, sô”.
    esse povo se aproveita de você, Carlos. que além de saber ler e escrever (bem) ainda sabe que isso de twiter não é de colocar em som de carro como eu pensava até ocê me explicar que era outra coisa. é um espécie de radinho, né?
    abração,
    v.

  2. aiaiai disse:

    Se andar na linha o trem pega!!!! TOMARA! kkkkkkkkkkk
    belo texto, obrigada por ter paciência de decupar as bobagens q vivo recebendo por e-mail!

  3. Anna Theresa disse:

    Genial, tenho que compartilhar!

  4. Gritante do Ipiranga disse:

    Pois é…

    São todos uns babacas os que resolvem divulgar a mensagem.

    São os babacas que pagam 50% de imposto em um saco de arroz, são os babacas que pagam os carros mais caros do mundo, são os babacas que estão fartos de trabalhar para os gatos gordos do andar de cima, e, desde o governo PT, de forma a legitimar a sua existência dispendiosa, distribui alegremente o que é arrancadao a ferro e fogo a quem trabalha.

    Descredibilizar quem expressa a sua idéia ou indignação é a primeira e mais fácil forma de descredibilizar e bem típico dos “ismos” extremistas onde tem que haver anjos (que só querem o bem da sociedade) e demônios (mesquinhos e maus que não aceitam que os seus impostos sejam utilizados em campanhas populistas, não estimuladoras do trabalho).

    Em minha opinião, deveriam era aumentar o salário mínimo. E acabar com essa pouca vergonha que é dar o auxílio A, B ou C a quem não trabalha…

    • Márcio disse:

      Pois eu sou brasileiro e tenho vergonha de setores de classe média que que se acham “os trabalhadores”, “os pagadores de impostos”, “os melhores”, e ficam por aí vomitando sua indignaçãozinha de merda. Bando de ignorantes.

      Se fossem ler e estudar o Brasil, não estariam por aí fazendo esses fiascos, repassando correntes ridículas como a que o autor do post menciona e outras tantas (aquela do “troque um político por trocentos professores” é ainda mais ridícula).

      Só a título de informação, caro “Gritante do Ipiranga”: os estudos científicos mais sérios e rigorosos na área de políticas públicas e sociais são unânimes em destacar a importância de políticas de transferência de renda para reduzir a miséria em países com altíssimos níveis de desigualdade. Estudos desse tipo são feitos não apenas no Brasil, mas na Europa, EUA, Ásia, etc. Então, não se tratam de “campanhas populistas”, mas de políticas de Estado, como as que Europa, Canadá, EUA adotam à muito tempo.

      Vá estudar rapaz!!!

      • Gritante do Ipiranga disse:

        Como eu disse, descredibilizar, berrando como um animal que quem está falando não sabe do que fala é a forma mais simples e original de deitar tudo abaixo… E busca-se logo o abrigo à luz da “ciência”, informação essa que só o diletante que fala possui…

        Já agora, caríssimo Márcio, você é daqueles que devemos “pagar e calar”? Acha que não é lítico o direito a indignação?

        Só para esclarecer quem estiver lendo… Você é adepto daquelas filosofias cubanas, não é? Onde todos são iguais, é tudo muito fraterno, mas só quem pode falar sou eu, membro do politburo, é isso? Acho importante que esclareça para quem ler captar o contexto da coisa…

        Lá também se descridibiliza, insulta e joga na prisão quem discorda, em moldes mais gravosos do que os você vocifera aqui…

        Cumprimentos!

        Ps. E já agora, que tal enumerar, uma por uma, as “teorias científicas”, papers, artigos, etc que fundamentam a sua argumentação?

      • Gritante do Ipiranga disse:

        Pois é… Até hoje não apareceram os ditos estudos, não é?

        Estarão debaixo do tapete?

  5. Helena disse:

    Mas me diz uma coisa… Posso ter entendido errado (espero que sim). Mas eu ainda não entendi porque os filhos de um cara que foi preso têm direito, se não me enganei, a cerca de R$860 mensais, enquanto um professor, trabalhando, muitas vezes não ganha isso (ou porque não dá 40 horas de aula, ou porque o piso não é respeitado, ou os dois). Tem lugares ainda em que os professores estão ganhando abaixo do salário mínimo! Me digam, que crime os professores cometeram pra merecer isso? Aparentemente nenhum, senão pelo menos teriam o que dar de comer aos seus filhos…

    • Gritante do Ipiranga disse:

      Muitíssitimo bem colocada a questão da Helena. Talvez o Sr. Márcio ou mesmo os autores da “Sociologia do Absurdo” possam respondê-la.

      Contudo, minha cara Helena, não espere grande coisa. Ou não lhe hão-de responder, ou, se o fizerem, será a descridibilizando-a, chamando você de idiota, burra, reacionária, etc, de forma a querer dizer que voce não sabe do que fala.

      Somos iguais, é verdade. Critica-se, sobretudo, porque quem trabalha tem que ser menos igual que os outros (no caso, a família de um presidiário), mesmo que nada tenham a ver com a conduta irregular do seu familar.

      A minha proposta era que se desse o mesmo direito aos filhos de um professor, por exemplo, desempregado. Mas sendo economicamente impossível fazê-lo, tendo que lidar com a realidade (e não com o messianismo político de certos sectores, sobretudo da esquerda radical), ponderando dar-lo aos filhos de um presidiário ou a de um trabalhador, considero mais justo dá-la aos filhos de quem trabalha (e que contribuiu com os seus descontos e impostos para o crescimento do país).

  6. Virgílio disse:

    Vistos, etc.
    Chamo o feito à ordem.
    Vejo que os viúvos de Salazar e as viúvas de Aético passaram a pulular – como cogumelos – nesse minifúndio democrático.
    Respondo-os, ó Carlos, se me permite, já que, obviamente, você está com coisa mais interessante a fazer:
    VOCÊS ESTÃO NO ESPAÇO ERRADO, o blog aqui é contra a corrente da mesmice, da pasmaceira e do senso comum.
    A corrente científica é o minimalismo penal e a teoria crítica da criminologia, vá lá, busquem também os teóricos da sociologia do crime que o Prof. Carlos trabalha tão bem.
    Se vocês se dispuserem a estudar isso, voltem, querendo, que terei o maior cuidado em responder-lhes.
    Mas favoreçam-nos com a ausência de comentários de every days theories, por favor.
    Só um cuidado lhes peço: leiam a legislação pertinente antes, de molde a não reproduzirem bobagens.
    Esse discurso de vocês não ilude ao mais pacóvio dos néscios.
    Como ando mesmo plácido nessas férias de tanto trabalho, sem descer ao nível de obviedades trial by media, me divertiria muito vendo as ideias de vocês aqui discutidas.
    Por favor, deixem as de Salazar na sala empoeirada do Museu da Paleontologia das Ideias Sem Sentido.
    Aqui, como a atenção estatal dada aos familiares dos presos, o espaço é curto.
    LIVROS: UM DIA VOCÊS AINDA HÃO DE LER UM!

    • Teórico dos Seguros disse:

      Ao invés de estarem a discorrer sempre sobre a ideologia, vamos deixar claro a quem lê do que se trata o auxílio em questão:

      Receberá o indivíduo que desconta para a segurança social, uma certa prestação, se vier a ser condenado pelo cometimento de um crime.

      Seja-se de direita ou de esquerda, reflita-se sobre uma questão: por um acaso alguma seguradora particular aceita fazer seguros que dependam não puramente do acaso, mas diretamente da vontade do segurado?

      Sim, porque a Segurança Social garantir uma prestação no caso do cometimento de um crime, seria o mesmo que uma seguradora particular aceitar fazer um seguro de vida de quem esteja em estado terminal ou de um automóvel que vá ser conduzido por uma pessoa sem habilitação.

      Então fica a pergunta: porque diabos a sociedade deve subsidiar, através da Segurança Social, uma prestação que será paga a alguém, especialmente se o acto cometido, na generalidade dos casos, é fruto exclusivo da sua vontade própria?

      Depois a Previdência está falida e não se sabe porque. E aí, toca a taxar com mais força quem trabalha.

      Talvez fosse o caso de taxar todos os bons samaritanos que por aqui andam…

  7. Alexandre disse:

    Já havia topado com este texto indigente. Como dizia Nelson Rodrigues, “é tão profundo que uma formiguinha o atravessaria com água pelas canelas”.

    • Gritante do Ipiranga disse:

      É verdade. Pelo jeito, há aqui uma unanimidade entre os que fizeram reply a este post.

      Como bem dizia o queridíssimo Nelson Rodrigues, “Toda unanimidade é burra”…

  8. Adeir Júnior disse:

    Lembro-me de ter recebido este e-mail pelo menos umas cinco vezes.

    Respondi a todos, tentando esclarecer o que era, na realidade, o auxílio-reclusão. Quem estava enviando estes e-mails não passava de um idiota desinformado. Tipo aqueles “rebeldizinhos leite com pêra”, no melhor estilo Datena.

    Como acredito que o principal já foi dito pelo Virgílio, deixo apenas alguma orientações aos que tentam criticar sem ao menos saberem o que estão falando:

    1) O auxílio-reclusão é um benefício PREVIDENCIÁRIO. Ou seja, somente é devido aos dependentes do TRABALHADOR QUE RECOLHE CONTRIBUIÇÕES (INSS). É como o seguro que vc faz do seu carro, porém é um seguro de pessoas.

    2) Para ter direito ao auxílio-reclusão, o último salário do segurado recolhido à prisão não pode ser superior a R$ 862,60. Ou seja, somente será devido aos dependentes do trabalhador de baixa renda.

    3) O valor do auxílio-reclusão não varia conforme o número de dependentes do preso. É pago em apenas uma parcela que, para o cálculo do valor, leva em conta todas as contribuições que o preso tenha efetuado (a partir de julho de 1994).

    E o mais impressionante é que o Prof. Carlos ainda deixou os links sobre o assunto! Muitos deveriam ler antes de começarem a defenderem suas geniais opniões sobre o tema.

    No mais, parabéns! Ótimo texto, Carlos!

    • Gritante do Ipiranga disse:

      Talvez fosse melhor esclarecer que a segurança social poderia dar melhor destino a este valor e poderia ter as suas finanças mais equilibradas se a existência do mesmo não estivesse contemplada na lei.

      Deve-se lembrar aos pseudo-ditadorezitosde esquerda (que são muito bonzinhos, mas gostam de fazer valer a sua vontade acima de tudo e de todos) que andam por aqui que, se a maioria da população vota contra uma questão, em nome da democracia, deve-se resolvê-la de acordo com a opinião desta maioria.

      Como a maior parte do povo brasileiro é consituído de gente honesta e trabalhadora, que não deve estar subsidiando bandidos, julgo que seria o caso de se submeter a questão a escrutínio público, para que manifeste a sua opinião.

      Alguém é contra o democrático acto de que cada um manifeste a sua opinião?

  9. Josie Siman disse:

    Gente,
    Às vezes eu tenho a impressão de que todos que têm pretensões intelectuais tendem a ver “luta de classes”, preconceito, etc. em qualquer discurso!
    Tudo bem que a mensagem que circula na internet (Vai transar? O governo dá camisinha…) abre margens para a leitura feita por Carlos Magalhães, mas não vamos nos esquecer que há outras leituras possíveis! Se entendermos a frase “agora experimenta estudar e andar na linha para ver o que acontece” como “experimente estudar e não roubar, matar, etc”, o que é uma leitura válida pois o texto tem por foco o “auxílio reclusão” (aliás ele foi feito como protesto a isto), nossa nova leitura será: Vai transar? O governo dá camisinha (ou seja: o governo se preocupa com vc: não contraia aids, não tenha uma gravidez indesejada), Já transou? O governo dá a pílula do dia seguinte (ou seja: gravidez indesejada? O governo te dá o remédio que vc não tem dinheiro para comprar), etc etc… Observem que as primeiras observações sobre as ajudas do governo estão em caixa baixa, o que permite a leitura: “até aqui tudo bem”, mas DAR AUXÍLIO A BANDIDO (aqui o texto está em caixa alta)??? Se você se forma e vai dar aula no estado, vc não ganha mais do que R$800!! Mas se vc se casar com um bandido e tiver filhos está feita!!

    É claro que tal mensagem não é a melhor reflexão sobre a nova medida do governo. Mas gostaria de saber se vocês concordam comigo quando digo que há outras possibilidades de leitura do texto??

    Abraços.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s