COITADA DA YOLANDA


        Virgílio de Mattos

Dias duros, como diz minha querida amiga Miriam. Uma outra amiga, de Santa Clara, me manda a notícia demolidora sobre a última entrevista[1] de Pablo Milanes,  de quem ambos, eu e ela, gostávamos tanto, queríamos tanto e respeitávamos tanto.

Só pude vê-lo uma única vez e pareceu-me um cara legal, ainda que extremamente tímido. Confesso que estávamos um pouco ‘molhados’ de mojitos naquele bar que parece um longo trailer no lado esquerdo do porto de Havana.

Tempos depois estivemos por lá, eu Laurinha, Loyola e Caridad, pela última vez, em 2005 ou 2006, acho. Ainda deve estar por lá o velho bar. Hoje talvez cheio de turistas com os rostos rosados e encantados com a Vieja Habana, que sem o bando de turistas era muito melhor, mesmo quando mandavam ali os espanhóis ou os estadunidenses. Bobagem minha, turistas vão tomar mojitos na Bodeguita. Deveriam ir tomar no cu, ia quase escrevendo, mas tem muito turista que vai à Cuba exatamente pra isso, em especial italianos e espanhóis, foi por isso que refreei-me a tempo.

O barquinho que fazia o trecho dentro do porto não está mais à disposição para quem gostava de passear dentro do canal. A gente quase sufocado com a fumaça, um cheiro de óleo espesso e rindo, tomando rum e derretendo de calor por todos os poros.

Mas a notícia não era nenhuma brincadeira, Íris não tem nenhum senso de humor quando fala sobre a Revolução, parece uma uruguaya!

Eu já me havia aborrecido antes com Silvio Rodriguez, mas tenho que dar a cara à tapa: ele sempre se preocupou com o caráter mais, digamos elegantemente, rentável de sua obra sem nunca falar mal da Revolução que o criou.

E ninguém aqui é contra a crítica. Mas que seja, além de honesta e sincera, medida de que lugar é feita. Onde é feita. Por quem é feita. E, neste caso específico, para quem é feita. Posso dizer, por exemplo: minha mãe sempre foi uma filha da puta controladora, sem que com isso a desqualifique, exceto como uma filha da puta controladora, me entende?

Agora o Pablo vem com essa conversa, com essa espécie de síndrome de Marcos Vale habanero, dizendo que não confia em ninguém com mais de 75 anos?

E a senhora sua mãe (dele), como vai?

Oportuno Enrique Santos Discepolo, no impagável Cambalache:

‘Dale nomas, dale que va,

que alla en el horno nos vamo a encontrar.’

Lembro-me de um antigo poema, do início da década de 1970, um período triste, que dizia:

“Que mala hora para mi,

Que (dizia um outro nome) Pablo Milanes  – digo eu –

Haya metido tan hondo y en tan mala hora

La pata”.

 

Por plata. Penso.

Mas dizer uma merda dessas por dinheiro?

Coitada da Yolanda.


[1] – Ao EL NUEVO HERALD, de Miami. Órgão da extrema direita daquele nefasto país ao norte do México e ao sul do Canadá.

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